luis.f.silva@kanguru.pt
Sent: Sáb. 10-04-2010 12:26
Bom dia.
Quero fazer um comentário a este tema baseando-me na
opinião que partilho, enquanto economista, com outro profissional, João César da
Neves, que escreveu o seguinte texto no seu livro.
"Introdução à Ética Empresarial"
"O fenómeno determinante do nosso tempo é sem dúvida o magno processo de desenvolvimento económico. Iniciado em meados do século XVIII na Grã-Bretanha, com a Revolução Industrial, este dinamismo transformou todo o mundo em 250 anos e promete continuar a sua revolução. Embora o seu instrumento seja económico, através das empresas e tecnologia, os seus efeitos são muito mais vastos. Ele já transformou a política e a família, a sociedade, o emprego, o lazer e tantos outros elementos da vida corrente. Embora continuemos a usar os mesmos termos de antes, nem sempre tomamos consciência do enorme abismo que nos separa do Antigo Regime.
O resultado mais sensível é a espectacular melhoria das condições de vida, que se verifica em todas as classes sociais. Nós não sabemos já o que era ser pobre numa sociedade agrícola e tradicional, onde os sapatos eram um luxo e muitas pessoas não sabiam o que era férias nem tinham saído da sua aldeia. Hoje até os mais miseráveis da sociedade ocidental vêem televisão no café ou gozam de serviços de saúde. No Terceiro Mundo, as vacinas, o plástico e os telemóveis mudaram para sempre a miséria em que ainda vivem.
Apesar desta melhoria extraordinária, a sensação comum é que o mundo hoje está perdido. Não se discutem os ganhos, mas há uma sensação endémica de maldade e injustiça e a certeza de que o desenvolvimento cria maior desigualdade e pobreza.
Será isto verdade?
Para começar tem de se dizer que existe aqui uma ilusão de óptica. Nunca se falou tanto de justiça e cooperação como hoje e, se olharmos com atenção, vemos hoje muito mais justiça do que antes. Já esquecemos a enorme disparidade social de há 200 ou 300 anos e tudo o que avançámos desde então. Ainda falta fazer muito e não vivemos num mundo justo, mas não devemos desdenhar o que se conseguiu.
A realidade é exactamente a contrária da opinião comum. de facto o desenvolvimento tende a reduzir a desigualdade, devido exactamente ao seu dinamismo essencial. este facto é patente á observação mais elementar. O fenómeno central da economia actual é a adopção de técnicas produtivas - em fábricas e não só - que aumentam muito significativamente a produtividade do trabalho e a quantidade de bens disponíveis. Por isso, o elemento que, antes de mais, manifesta o desenvolvimento moderno é o aumento da quantidade de bens produzidos, a custos cada vez menores." (continua)
(Continuação) "(...) O aumento da quantidade e a redução do custo não são aspectos que melhorem a situação dos ricos. As pessoas que são ricas nãos se interessam pelo facto de um bem se tornar mais abundante e mais barato pois conseguiam comprá-lo mesmo quando ele era raro e caro. Com o desenvolvimento, o que se verifica é que os bens que antes eram acessíveis apenas aos ricos, se tornam acessíveis a quase todos.
Assim, o principal efeito social do desenvolvimento não é que "os ricos fiquem cada vez mais ricos e os pobres mais pobres". Aliás na sociedade tradicional os pobres não podiam ser mais pobres e os ricos teriam muita dificuldade em ser mais ricos. O principal resultado social do desenvolvimento foi a criação da "classe média", ou seja, de um enorme conjunto de pessoas, de longe a maioria da sociedade actual, que antes era pobre e agora tem acesso a uma grande quantidade de bens. Essa classe média, que se tornou um dos principais elementos caracterizadores da nossa sociedade, é em si mesma, eliminadora das desigualdades. É por causa dela que a desigualdade social se reduziu extraordinariamente nos nossos dias. Por isso existe maior equidade, não menos.
(...) Claro que os mais abastados também beneficiaram com a economia.
(...)Além da classe média existem mais efeitos dinâmicos que promovem a justiça. A troca, por exemplo, é um mecanismo gerador de igualdade. Antes do desenvolvimento moderno cada país ou região só ganhava se o vizinho perdesse. Por isso o pior que nos poderia acontecer era que o país vizinho tivesse prosperidade, porque viria atacar-nos. Hoje, se o meu vizinho estiver bem, ele é meu cliente, meu fornecedor, meu investidor, e por isso também beneficio com o seu sucesso.
Finalmente a atenção social à injustiça é hoje maior que nunca. Nunca existiram tantas leis, organismos, programas e esforços pela justiça como nos dias de hoje. Direitos humanos, luta contra o racismo, a discriminação, etc., são invenções de hoje. A diplomacia, tradicionalmente ligada a atacar os outros países, introduziu agora conceitos de cooperação e ajuda, porque deixou de ver os outros países como inimigos e os vê como clientes, fornecedores. Isso tem evidentemente consequências benéficas. De todas estas formas o desenvolvimento cria igualdade e justiça.
(...) É verdade que, ao mesmo tempo, o desenvolvimento é em grande medida a causa de alguma injustiça. A própria dinâmica de crescimento cria desigualdade e instabilidade. Isto gera um conflito, porque ambos os objectivos são desejados pela sociedade. Nós queremos desenvolvimento e igualdade." (Continua)
(Continuação) "Este conflito pode ver-se de várias formas. Suponhamos uma aldeia onde toda a gente é pobre. Se alguém criar ali uma fábrica de sucesso, toda a aldeia fica melhor. Mas também aparece a desigualdade, porque do director ao contínuo, uns têm mais do que outros. A nível mundial e histórico, a causa da desigualdade vem de o desenvolvimento começar num sítio e num momento concreto. Como se viu, a "revolução industrial" começou na Grã-Bretanha em meados do século XVIII. Depois foi-se espalhando por outros locais.
Isso cria um "efeito de pelotão". Quando um grupo de corredores está na linha de partida, encontra-se junto, todos em igualdade de circunstâncias. Mas quando começa a corrida o pelotão vai-se alongando, porque há uns que mal partiram, outros que correm mais devagar, outros vão a grande velocidade. Todos avançam, mas uns mais do que outros. Assim se vê que a melhoria cria desigualdade. Mesmo quando tudo fica melhor, há uns melhor do que outros. E isso cria tensões e gera conflitos.
(...) Apesar de todas estas melhorias existe, sem dúvida, um descontentamento na sociedade actual. Há insegurança e irritação latente. Estamos melhor que nunca mas nunca nos sentimos pior.
Uma primeira razão é, de novo, uma ilusão de óptica. Dado que estamos muito mais sensíveis aos problemas da justiça, cada caso chocante é relatado e discutido com muito mais atenção do que antes. Nas épocas anteriores havia muita desigualdade e injustiça e, por isso mesmo, não se falava nisso. Era algo habitual e normal, tão comum que já ninguém se chocava. As melhorias conseguidas foram dramáticas, mas isso leva a uma tal indignação perante o que ainda falta fazer que, para observadores desatentos, dá a sensação de que as coisas estão piores. Prometeram-nos um mundo perfeito e afinal ainda temos muitos problemas. Essa é a primeira razão do descontentamento." (Continua)
(Continuação) "Mas, além disso existem razões válidas para esta sensação de perda. O desenvolvimento que nos deu tão grandes ganhos vem, ele mesmo, envolvido numa tal taxa de mudança e instabilidade que cria um sentimento generalizado de insegurança. Na sociedade tradicional a miséria era calma e previsível. Hoje vivemos muito melhor mas não sabemos o dia de amanhã.
(...) Daqui nasce a perturbação permanente dos nossos quadros de referência, além dos efeitos de pelotão que podem criar desigualdade. Além disso, o ritmo moderno, determinado pela confusão das cidades, definido pela obediência ao relógio, vivendo em pequenos apartamentos, com os pais fora de casa e a família nuclear desenquadrada, cria uma tensão que, no meio das melhorias sentidas, faz perder de vista o essencial.
Toda esta modificação trouxe também uma confusão ao nível dos valores fundamentais. Convivemos com as mais variadas ideologias e atitudes culturais, numa Babel de critérios e referências. Curiosamente, uma das poucas coisas em que todas essas escolas estão de acordo é no repúdio da situação actual.
(...) O fascínio e a confusão do Ocidente, mistura de poder e decadência, leva
os vários povos do mundo a reagirem de várias formas. Alguns caem no repúdio
violento.
A repulsa contra o desenvolvimento, que tantos consideram imparável, leva alguns
a cair no horror. Terrorismo, solidão e suicídio, droga e divórcio são fenómenos
dominantes neste tempo, com características incomparáveis com qualquer outra
época ou local. Vale a pena meditar na terrível tentação de quem destrói o que
não compreende. Mas também na maldade do que estamos a construir sem
compreender.
A Idade Moderna disse que não eram precisos valores. (...) Havia a certeza de que as tradições antiquadas, tabus e religiões estavam mortos. O mundo novo vivia com a ciência, a técnica e a política. A honra, a fé, a crença, todas essas coisas eram mitos anacrónicos e desnecessários.
(...) Cada vez mais se ouve falar da necessidade de valores, ética, honestidade. Campanhas e programas eleitorais, movimentos sociais e jurídicos contra a corrupção, na política, no desporto, nos negócios. Por todo o lado se vêem proclamações de moralidade. Sente-se até um retorno à família, ás tradições.
Mas este apelo aos valores vive-se no meio da confusão que permanece. Não se pretende um regresso a velhas ideologias. Tendo destruído as tradições e os valores, é difícil encontrar as referências. Nascem seitas, gnoses e misticismo, vendem-se milagres e apregoa-se a ética descomprometida, vivida na facilidade e no consumismo. Muitas das novas ideologias são a mera consagração da arbitrariedade.
Ao mesmo tempo, esta desorientação mostrou que os valores são muito mais resistentes do que se imagina, e acabam por se manifestar sempre. Toda a gente sabe o que é uma pessoa honesta e decente, onde estão as vidas honradas, o que significa ser bom e caridoso. Apesar da diversidade cultural, um traste é um traste em qualquer parte do mundo.
(...) Afinal, no fundo de si mesmo, o Ser humano continua muito parecido com o que era nas cavernas. A Humanidade avançou extraordinariamente desde o Neolítico, mas em certas dimensões, em especial as ligadas ao bem e ao mal, continua muito parecido com o que era na Antiguidade." (Continua)
Como conclusão gostava de dizer que muitas vezes é
difícil fazer-se o correcto e ter-se uma grande alma, sobretudo quando as
condições em que vivemos são muito difíceis. Por vezes temos de fazer o que é
preciso para sobreviver, para obter o dinheiro que nos permite comer, "respirar"
e alimentar os nossos entes queridos.
A actual conjuntura económica está bastante difícil. Nós estamos no fundo de um
ciclo económico. As boas notícias quando se está em baixo residem na esperança
que o futuro seja melhor.
Na minha opinião as pessoas não são más por natureza. São-no, principalmente por medo ou necessidade.
Cada geração tem sobre os seus ombros um enorme fardo, uma grande responsabilidade de corrigir o que está mal e melhorar o que está feito. Acho que cada um deve fazer aquilo que está ao seu alcance no sentido de dar um contributo positivo para o mundo e no sentido de tentar "aliviar" o fardo das gerações vindouras que são, no fundo, os nossos filhos e netos.
De facto nós estamos a viver melhor que antigamente mas ainda temos muito a melhorar, no mundo em geral e no nosso dia-a-dia em particular.
Na minha opinião um dos grande problemas da actualidade está relacionado com a falta de valores morais. A Igreja é a instituição que por excelência divulga esta função. No entanto as pessoas estão cada vez mais desligadas desta instituição. Se a Igreja não nos consegue providenciar uma boa base moral, temos de encontrar alternativas para uma boa formação das pessoas que, na minha opinião, deverá começar dentro do seio da própria família.
Existe um outro aspecto que eu considero importante melhorar na sociedade que tem a ver com o facto da organização humana ser essencialmente machista. É o homem quem tem o poder. Isto está patente na história, na religião, na política, nos negócios. A influência da mulher está a aumentar mais, mas ainda existe um desequilíbrio. Eu sou a favor do equilíbrio, em geral, e por isso sou a favor do equilíbrio de poder entre o masculino e o feminino no mundo actual. Sou católico mas tenho consciência que esta e quase todas as religiões, são dominantemente masculinas. Deus é uma figura masculina, tal como Jesus Cristo. Ora neste aspecto eu entendo que se devia dar mais atenção ao lado feminino e, correndo o risco de soar "pagão", dar importância por exemplo à Mãe Natureza. Não é preciso aprofundar muito este assunto para dizer que nós estamos a consumir demasiados recursos naturais e, potencialmente, a destruir o nosso planeta mesmo tendo consciência de que necessitamos dele para viver.
Quero ir ainda mais longe neste assunto, deixando um tema para discussão, que é o das sociedades matriarcas. Sabendo que no nosso caso seria uma mudança radical, não posso deixar de lado o conhecimento que a natureza me dá do excelente funcionamento de sociedades animais matriarcal como a das formigas ou abelhas.
Uma vez vi um programa do National Geographic onde comparavam duas espécies de macacos que viviam em comunidade. Uns eram matriarcal e outros patriarcais. Os que viviam numa sociedade patriarcal eram mais violentos, sempre em constante conflito pelo domínio pois só o macho dominante é que acasalava com as fêmeas (ele ficava com todas e os outros machos com nenhuma). Na sociedade matriarcal, todos os machos tinham uma fêmea, viviam pacificamente e possuíam comida em maior abundância, ou seja, o seu nível de vida era melhor.
Não querendo soar anti-feminista vou concluir referindo
outro tema para discussão onde as mulheres já não ficam, na minha opinião, tão
bem na fotografia.
Um dos grandes flagelos da actualidade é a falta de emprego. Existem mais
pessoas a querer trabalhar do que trabalhos. Na minha opinião este facto deve-se
ao grande aumento do número de pessoas activas relacionado com a entrada massiva
das mulheres no mundo do trabalho. Com a entrada das mulheres no mercado de
trabalho, o número de trabalhadores, pelo menos, duplicou. Não tenho nada contra
o facto de as mulheres trabalharem, pelo contrário, mas entendo como economista
que o mercado de trabalho do lado das empresas ainda não se conseguiu ajustar a
este aumento de empregados. Esta pode ser uma explicação para as elevadas taxas
de desemprego, e a solução, a criação de mais empresas, de mais actividades
produtivas para absorverem a mão-de-obra.
Cumprimentos
Luís Silva