A viagem a Tóquio com sismos: de 24-05-2011

Quando um País está a viver uma calamidade, uma catástrofe natural, enfim um pesadelo que ninguém quer como experiência, é natural fugir-se desses lugares. Especialmente os visitantes costumam apressar a sua partida e os que tencionavam visitar o País anulam as suas viagens. 

Um sismo com a magnitude de 8,9 na escala aberta de Richter provocou a morte a centenas de pessoas na costa nordeste do Japão. A cidade mais afectada foi Sendai. O forte sismo, o maior em 140 anos, foi seguido de um tsunami que poderá atingir 50 países. O cenário é dantesco.

Imagem de destruição após o Tsunami.No entanto o mesmo não pensei eu, porque já tinha decidido ir na data do dia 8 de Abril e desde que as companhias aéreas voassem para Tóquio, nada me iria fazer desistir.

Quando chegou o dia 8 de Abril lá estava a caminho do aeroporto contra a vontade de muitos amigos e familiares, os quais me tinham aconselhado vivamente a não viajar para o Japão e muito menos para Tóquio, onde a ameaça de radioactividade era uma constante. 

Chegada a Tóquio: 

Assim que desembarquei no Aeroporto dirigi-me para os pontos de controlo alfandegário com um passo rápido, porque segundo a minha experiência (já tinha estado 2 vezes em Tóquio) as filas eram longas e muito demoradas obviamente. Sabia que os funcionários costumam colocar perguntas, enquanto fazem uma revista à nossa bagagem e que por isso levam sempre mais tempo que em qualquer Aeroporto.

Ao chegar ao ponto alfandegário já tinha os documentos da emigração completamente preenchidos com a indicação do Hotel e da localidade onde iria hospedar-me, também por experiência sabia que isso é obrigatório e fundamental para reduzir as suspeitas sobre o visitante.
Surpresa, não havia ninguém para o controlo alfandegário e eu tinha sido dos primeiros a obter a minha bagagem no tapete. Também achei estranho o avião A330-300 vir com metade dos  assentos livres, este avião leva cerca de 330 passageiros e viajando com metade dos passageiros não deve ser suficiente para pagar o combustível, conclui.

Como esperava o funcionário colocou as habituais perguntas; Porque estava ali, qual era o propósito da minha viagem, etc., mas eu já sabia que mostrando o "yudansha card" ou seja, o passaporte da Hombu Dojo Aikido Aikikai seria tudo muito mais fácil e mais ainda se me identificasse como Sensei (professor de Aikido). 
O yudansha card é o cartão de membro da organização mundial de Aikido, mas porque a sua configuração é muito semelhante a um passaporte habituamo-nos a chamar aquele cartão, o passaporte da Aikikai.

Fui de imediato para o parqueamento exterior do Aeroporto, já tinha adquirido a informação pela Internet de como me deslocar para a cidade de Shinjuku e por isso comprei o bilhete para a limusina do hotel no Aeroporto junto à saída. Ficava muito mais barato e deixava-me à porta do Hotel sem o cansaço de percorrer alguns quilómetros com a bagagem, caso fosse de metro ou autocarro. Claro que está fora de questão ir de Táxi, a distância do Aeroporto ao Hotel deveria ser o preço equivalente ao que paguei na viagem de avião! Foram 2 horas de limusina por 1800 Ienes.
Chamam Limusina ao autocarro, por favor não pensem numa Limusina do tipo das que se vê nos filmes, um longo automóvel.

Chegada ao hotel: 

Antes de chegar ao Hotel houve paragens em outros Hotéis e isso deixava-me sempre preocupado com a descarga de bagagens, por causa dessa preocupação fiquei sentado no lugar que dava para ver o funcionário a entregar as bagagens aos passageiros que se retiravam.
É sempre melhor prevenir do que depois remediar, imaginem que alguém levava a minha bagagem por engano e lá se iam os 2 Doguis (aikidogi, fato de treino do Aikido) para treinar Aikido.
A minha preocupação fez disparar uns comentários de alguns passageiros que pronunciaram o Gajiin (visitante) e European, o que deu para eu compreender que acharam errado a minha atitude de observar a descarga de bagagens, provavelmente pensaram que eu estivesse com medo que me roubassem a mala, mas não era essa a minha preocupação
 porque eu sabia que os Japoneses não pegam nunca numa mala que não lhes pertence e além disso as malas têm todas uma etiqueta com um número que está no nosso bilhete. O que me preocupava eram os enganos e enganos todos praticam mesmo contra vontade, por isso eu estava alerta, queria ir treinar Aikido e sem o Dogi era impossível.

Quando a Limusina parou frente ao Hotel fui de imediato à recepção para fazer o "check-in" e foi quando recebi a primeira notícia muito desagradável. Segundo a funcionária da recepção só seria possível fazer o "check-in" às 14.30 e naquele momento eram 10.30 da manhã, portanto faltavam 4 horas para poder tomar um banho e deitar o meu corpo extremamente fatigado pela viagem numa repousante caminha. A viagem tinha sido muito longa, tinha saído da minha casa às 4 da manhã e tinha chegado no outro dia às 8 da manhã a Tóquio, estava por isso em "papas" e não era caso para menos.

Pedi para me guardarem a mala grande e fui dar um passeio, mas estava a chuviscar e o meu chapéu de chuva estava na minha mala grande, portanto mais uma má notícia! Aquela chuvinha estava a dificultar o tempo de passeio naquela zona do Japão desconhecida para mim.  

Depois de andar um pouco reparei que o outro Hotel estava bem perto daquele onde iria passar a primeira noite.

Quando reservei o quarto de hotel não havia vaga no Hotel Washington para a primeira noite e por isso tive que reservar no outro Hotel que curiosamente já conhecia do tempo em que tinha participado na cerimónia da tomada de posse do Doshu (chefe) da Hombu Doju Aikido Aikikai, o famoso Hotel Keio Plaza, o qual fazia doer o pescoço por tentar ver o seu último piso de tão alto que é.  

Dirigi-me ao Hotel Washington e perguntei à funcionária se tinha quarto para aquela noite e se podia fazer o "check-in" antes da hora normal (normas são normas e eles os japoneses são difíceis de as quebrar), a funcionária disse que sim, que podia dormir ali naquela noite e que podia fazer o "check-in" às 13.30. Finalmente uma boa notícia, já tinha ganho uma hora para o meu precioso corpinho!

Depois de ter de novo a minha bagagem, dirigi-me à recepção no 3º piso e fiz o registo, mas já não sentia vontade alguma de dar mais um passo e ainda faltavam 2 horas para o abençoado descanso. A funcionária tinha sentido pena de mim ou do meu ar suplicante e tinha telefonado para a chefia no sentido de obter autorização especial para antecipar o "check-in" em uma hora, mas era tudo o que ela podia fazer, nada mais estava ao seu alcance.

Miséria! Pensei, enquanto arrastava o meu pobre corpinho pelos pisos comerciais daquele enorme edifício. Não encontro um lugar para me sentar, se as escadas não fossem rolantes já me tinha sentado nos seus degraus, concluí.

De repente um dos bancos da recepção ficou vago e com alegria lancei-me pelo espaço num voo tal ave de rapina a atacar uma pobre presa indefesa. Sentei-me e apreciei aquele momento como se tivesse sido abençoado com algo admirável.  

Eram 12.40 pm e a funcionária chamou-me para me dizer que o quarto estava pronto, se queria ir já para o quarto. Achei aquele trocadilho de palavras como o trocadilho mais saboroso da minha vida, porque normalmente é o homem que pergunta se a mulher quer ir já para o quarto, mas a minha disposição não dava para sentir vontade de brincar com palavras e aquelas palavras eram das mais significativas que tinha ouvido nos últimos meses da minha vida. 

Assim que cheguei ao quarto atirei a mala para um canto e deitei-me em cima da cama, depois de ficar em roupa interior, claro. Pensei em ir tomar um banho, mas o corpinho adorou aquela posição e só passado umas 3 horas é que fui tomar um banho quentinho após ter acordado sem saber onde estava.

No Japão o fuso horário é de mais 8 horas e portanto quando são 13h significa 5 horas da manhã em Portugal, por isso já se pode fazer uma pequena ideia, do que significa andar a passear uma mala de viagem nos pisos comerciais dum qualquer edifício às 2 ou 3 da manhã.  

As casas de banho são mesmo casas de banho, isto quer dizer que os japoneses têm 2, uma é a que os Ingleses chamam "restroom" e nós chamamos retrete e a outra é a que os Ingleses Banheira Japonesa.chamam "washroom" e nós chamamos casa de banho, mas a nossa "wc" tem tudo e a deste Hotel também é como as nossas casas de banho, também tudo numa.

As casas de banho têm uma banheira que foi cientificamente estudada para dar um banho de imersão só para os Japoneses, isto quer dizer que tem 1x0,80 mt, portanto para nos metermos lá dentro temos que ter as pernas encolhidas, mas mesmo assim é agradável ter a água a cobrir o nosso corpo.

2º Dia:

Depois de dormir todo dia e toda a noite acordei pela madrugada, eram talvez umas 4 horas da manhã e ainda era de noite pelo que pude observar da janela do meu quarto.

Liguei a TV e procurei desnecessariamente por um canal que falasse inglês ou qualquer outra língua estrangeira, mas eu já sabia que não iria encontrar qualquer canal de TV a falar outra língua que não fosse Japonês, já tinha tido essa experiência em anos anteriores e pelo que pude ver mantinha-se tudo na mesma.

Depois de desligar a TV fui de novo para dentro da banheira a qual tinha enchido com água quentinha e ali fiquei quase uma hora a relaxar os músculos. É realmente agradável aqueles banhos de imersão, mas muito mais agradável é o Ófuro, isso sim, é que é mesmo o melhor, que maravilhosa ideia que os Japoneses tiveram de inventar o Ófuro.
Ófuro ou grandes banhos, é como um sistema de jacuzzi ou banhos de diferentes tipos com vários tanques com água e é público.
Recordo as minhas visitas a Izumisano/Osaka para dizer que era inevitável a visita diária ao Ófuro com o meu velho amigo e Mestre Doshu Honda.

No quarto tentei ligar o meu portátil à Internet, mas sem sucesso. Tinha acabado de sair do banho de imersão sentia-me revigorado e já com algum apetite, também não era caso para admirar, só tinha bebido água (aquarius) desde que tinha chegado, é um tipo de água que quase alimenta e tira-se de qualquer máquina de venda ao público contra o pagamento de 130 ienes, cerca de 1 euro.

Como já tinha desistido de tentar ligar o Portátil à Internet liguei para a recepção e pedi explicações do que me parecia bastante obvio, francamente, para mim não tinha nada de especial, deveria ser só ligar a ficha do cabo à tomada e ao meu PC e encontrar o servidor, mas nada funcionava.
Da recepção disseram-me para ligar a TV (???) e assim o fiz, depois mandaram-me pressionar o botão vermelho e de seguida o botão verde do comando remoto da TV e pronto estava ligado à Internet.

Aqueles Japoneses são duma tecnologia que nunca chega à minha imaginação, quem havia de me dizer que o sistema de acesso à Internet passava pelo controlo remoto da TV e na própria TV a visualização dos passos para ligar-me à NET!

Finalmente podia visualizar os comentários e as noticias do Facebook e também saber das últimas notícias do Mundo. Esta ideia de trazer o portátil foi excelente, de outro modo passaria muitos dias isolado do resto do Mundo sem TV e sem Rádio.

Depois de desfazer a barba saí do quarto, estava definitivamente pronto para iniciar a exploração da zona. Tinha como objectivo ir praticar Aikido na Hombu Dojo todos os dias às 6.30 da manhã (Asageiko - treino de madrugada) e por isso tinha que descobrir o processo mais rápido e mais económico de lá chegar.

Ir de Táxi estava de novo fora de questão, porque o preço que eles praticam é de evitar o uso do Táxi, por isso caminhei na direcção dum túnel que dizia o nome duma estação do Metro e que ficava no piso -1 do Hotel Washington, pensei que seria muito bom sair do Hotel e entrar naquele túnel para apanhar o Metro. 

Após ter caminhado no tal túnel durante 20 minutos ainda não tinha encontrado qualquer estação do Metro, já começava a duvidar das vantagens daquele túnel, pelo que ia vendo só tinha saídas para avenidas e ruas e para alguns edifícios do Governo Japonês. Mais 10 minutos a caminhar para finalmente surgir uma estação de Metro, mas não era a estação de Shinjuko, era uma outra com mais um estranho nome.

Dirigi-me ao mapa do Metro e comecei a procurar a linha (Oedo line) e a estação Wakamatso, que era a que me interessava.
Depois de ter observado em pormenor todos os mapas expostos nas paredes cheguei à conclusão que nunca iria encontrar aquele lugar que me interessava. Incrível, (pensei para comigo próprio) estes mapas só estão escritos em kanji e não consigo ler nada dos nomes das estações.
Fiquei um pouco nervoso e comecei a olhar em redor à procura de ajuda, talvez encontrasse alguém que falasse Inglês. Fiz uma tentativa e disparei na direcção dum senhor. - May I have your attention, please?
A resposta não se fez esperar e foi a que mais temia. - Eigo hanashi imasen, gomen. (Perdão não falo Inglês.)

Já sabia que iria ser possível tal acontecer-me, de facto encontrar um Japonês que queira falar Inglês é coisa rara e mesmo que falem o Inglês evitam ter contactos com estranhos.

De repente chegou uma senhora de farda amarela e chapéu redondo, era uma funcionária da companhia do Metro, que viajam para as diversas estações com o objectivo de ajudar os visitantes.
 - Santa sorte, aqui está a minha salvação. Disse em voz alta sem receio que alguém me considerasse louco por estar a falar sozinho.

Assim que consegui toda a ajuda possível através daquela senhora meti-me na carruagem do Metro, que por sorte era o que ia para Wakamatsu/Kawada.

Ao sair na estação de Wakamatsu/Kawada foi preciso decidir para que lado caminhar e antes de iniciar a caminhada tentei de novo a minha sorte fazendo de novo uma pergunta, mas desta vez usei um pouco de Japonês. - Sumimassen, gomen né, Aikikai fundation doko desuka? (Vossa excelência, perdão né, Fundação Aikikai onde é?)
É evidente que os dois jovens japoneses fizeram um largo sorriso, mas gostaram da minha tentativa de comunicação em Japonês e por isso começaram a falar comigo em Japonês dando toda a ajuda que podiam e sabiam. É obvio que não percebia nada do que me estavam a dizer e por isso abri um mapa e apontei com o dedo para o local que pretendia visitar, depois atirei com uma frase em Inglês para estudar as suas reacções, podia ser que tivesse sorte.
Os dois jovens começaram a falar Inglês e eu quase abençoei aquele sagrado momento, finalmente alguém a falar Inglês, pensei cá para comigo.

Os jovens não podiam ajudar-me porque não conheciam a Hombu Dojo do Aikido e então fizeram algo raro, viraram-se para outra pessoa que ia a passar e fizeram-lhe a pergunta sobre a informação que eu procurava. Pura sorte, eles os Japoneses nunca fizeram isso por mim durante os 12 anos seguidos que visitei Osaka e aqueles dois jovens pareciam ter outra mentalidade, foram admiráveis.
Com outras ajudas lá consegui definir o lado para onde caminhar.

Caminhando para o lado esquerdo da estação fui andando, sabia que teria que andar uns 5 minutos a partir da estação, agora só faltava saber se seria do lado direito da rua ou do lado esquerdo.

- Inútil! Não consigo encontrar a Hombu Dojo, que chatice. Comentava em voz alta, enquanto olhando em redor tentava de novo encontrar ajuda de algum transeunte.

Devia estar perto, porque já tinha passado pela Bomba de Gasolina "GS" e o  Dojo deveria ser logo a seguir.

Mapa de ajuda para chegar à Hombu.Perguntei a um senhor que trazia um saco de desporto na mão se sabia onde era aquele lugar, apontando para o mapa na minha mão.
- Come with me, please. Disse o senhor enquanto esboçava um largo sorriso de simpatia.

Incrível, já tinha passado em frente daquele beco várias vezes e nunca tinha reparado numa pequena placa que dizia Aikido em Kanji, a qual estava na ombreira duma parede na entrada daquele beco.

Depois de entrar naquele beco fui andando até encontrar a Hombu Dojo e assim que cheguei mostrei na recepção o Yudansha card para ter acesso sem problemas à sala de treino do Doshu.
Para passar da Recepção para o interior descalcei-me e arrumei os sapatos num armário à esquerda, sem descalçar-me não poderia avançar para o interior do edifício, é proibido.

Era Domingo e o treino já tinha começado, assim que o Doshu me viu veio ter comigo e mandou-me sentar lá no fundo da sala apontando com um braço a direcção.

O Dojo estava cheio, não havia espaço para treinar sem correr o risco de atingir qualquer dos outros pares que existiam ao redor. Quanto a estrangeiros havia 3 caras que eram de certeza não japoneses, o que achei pouco, porque normalmente deveria haver muitos mais.

Antes da aula terminar retirei-me silenciosamente, tinha conseguido realizar a primeira parte da minha missão que era encontrar o Dojo. Agora de regresso ao Hotel ia tentar encurtar o tempo que levei até ali chegar, porque segundo os meus cálculos tinha gasto cerca de duas horas e meia em transportes só para alcançar o Dojo da Aikikai.

Quando voltei à estação de Wakamatsu tentei comprar um bilhete para uma estação mais perto possível do Hotel onde estava hospedado, mas ao olhar para o mapa a confusão era enorme e nem sabia qual a estação que deveria escolher.

Mapa do Metro de parte da Perfeitura de Tóquio.

Eu estava na estação nº E-03 e devia regressar pela linha Oedo line o mais perto possível do Hotel, mas o meu problema era o de não conseguir situar o Hotel em nenhum mapa dos que tinha trazido de casa, nem dos que no Hotel me tinham dado.

Já tinha percebido através dum pequeno passeio que anteriormente tinha feito que havia perto do Hotel o Parque de Shinjuku e já tinha notado que havia num dos mapas a indicação para Shinjuku park, então seguindo esse raciocínio saí nessa estação de Shinjuku Park e comecei a caminhar ao redor do Parque para ver se encontrava o Hotel.
Os altos edifícios não me deixavam ver nada para além deles próprios e começava a acreditar que o Hotel poderia estar por trás de qualquer daqueles altos edifícios.

Ao fim de quase uma hora e cansado de tanto caminhar vi o Hotel duma posição distante, de seguida tentei encontrar uma estação de Metro que estivesse perto daquele ponto onde estava. Finalmente e com grande alegria tinha descoberto o caminho para as "Índias", era assim que eu me sentia tal descobridor navegador do século 15.

Tochomae era a estação que me interessava e estava bem perto do Hotel Keio Plaza, o primeiro Hotel onde deveria ter ficado hospedado uma noite. Portanto, do Keio Plaza ao Hotel Washington era cerca de 3 minutos e por isso senti-me feliz.

Estava esfomeado, ainda não tinha comido desde que tinha saído do avião, só unicamente tinha bebido água, mas como estava também com excesso de peso achei que não faria mal estar com fome.

Desci umas escadas e num piso inferior ao da estrada que passava em frente do meu Hotel havia um restaurante de noodles. Olhei de fora e voltei a olhar, tal lobo que vigia a presa aguardando pelo momento certo para atacar. De repente uma senhora com um avental branco veio à porta e disse-me com um largo sorriso estampado no rosto.
- Dozo (Se faz favor). Apontando de seguida com a mão para o interior do estabelecimento.

Eu deveria estar envergonhado e por isso precisar que me viessem convidar a entrar ou então os empregados pensaram que eu não dava com a porta de entrada. De qualquer modo entrei e apontei com o dedo indicador para uma fotografia que exemplificava um tipo de refeição das muitas que ali havia.
A funcionária fez-me outra pergunta e eu respondi possivelmente errado porque acabei tendo uma refeição de noodle fria. Não gosto de comida tipo esparguete fria e depois de receber o prato e começar a comer teve que ser, que podia eu fazer!
Pedi uma cerveja. - Biru ókudasai.
Ao que a senhora respondeu. - Iieeé, biru.
Não tinham cervejas e para ter a certeza que a tinha entendido colocou os dedos em cruz à frente do seu nariz.

Que podia fazer senão beber água, mas a água tinha sido anunciada nos noticiários que estava contaminada com radioactividade assim como o leite. Olhando para os outros clientes notei que todos estavam a beber água e já alguns se tinham levantado para sair ainda vivos e com aparente saúde, por isso apanhei um copo e bebi água.
Não há-de ser nada, pensei.

Fui de seguida para o quarto estava estoirado fisicamente e aquela refeição do almoço mais parecia um pequeno-almoço, porque pelo fuso horário era no meu corpo 5 horas da manhã. Portanto e ainda de acordo com o meu corpo, tinha levado toda a madrugada a encontrar um caminho mais directo, mais rápido e mais económico para a hombu dojo.
Precisava descansar urgentemente.
Por causa do fuso horário de mais 8 horas que em Portugal estava completamente perdido de sono e cansado até aos ossos.

Assim que cheguei ao quarto ainda pensei ir tomar um banhinho de imersão, mas os olhos estavam tão pesados que nem consegui tirar a roupa antes de tombar sobre a cama como uma pedra.

1º Sismo

Havia passado talvez uma hora quando acordei com o som dos altifalantes do hotel que anunciavam a chegada dum sismo dentro de poucos minutos.
Sinceramente, achei que devia estar a sonhar, nunca na minha vida tinha visto um Hotel com sistema de comunicação por altifalantes para todos os hospedes. Era incrível, porque podia-se ouvir a mensagem nos corredores e dentro dos quartos!
 - Por favor não se preocupem com a vibração provocada pelo sismo, porque este Hotel está preparado para resistir aos sismos.
Fiquei surpreendido como é evidente, com aquela mensagem em Inglês, mas não me preocupei e fiquei deitado na cama à espera do que se avizinhava.
Grande sismo um Mês depois, 11 de Abril 2011.Passados alguns minutos após o aviso sonoro começa tudo a tremer e para meu espanto as paredes começaram a ranger produzindo um som semelhante ao que os cães fazem quando estão a ganir. Tudo estava a balançar e a estremecer, principalmente a minha cama estremecia de forma estranha.
Confesso que estava alerta a tudo ao meu redor na expectativa de saltar caso fosse necessário para qualquer lado, é claro que tinha especial atenção com o teto, tinha algum receio que caísse em parte ou no todo em cima de mim.
Na minha primeira análise do fenómeno eu tinha a ideia que deveria ser uns 5 ou 10 segundos e depois passava, mas a minha análise caiu por terra quando passados 30 segundos continuava tudo a tremer.

Ao fim dum longo minuto, que mais parecia ter sido uma hora, o sismo parou finalmente.

O meu estado de espírito não era de medo, pavor ou tensão nervosa elevada, não, não era nada disso! Havia em mim um estado de alerta como se tivesse que estar preparado para defender-me dum ataque com Katana, mas a minha perceção daquele "ataque" era diferente, porque era algo que não se podia controlar e então sentia-me de certo modo indefeso, inútil.

Já tinha vivido situações de total impotência como de uma vez com um poço de ar num avião que me levava de Osaka para Tóquio em 1999, perdeu altitude cerca d mil metros num piscar de olhos.
A sensação de que vamos morrer e nada se pode fazer entristece o nosso Ser, ficamos com mágoa repentina por deixar tudo o que amamos. Queremos viver, é a nossa ideia constante.

Após ter passado o sismo notei que o meu ritmo cardíaco estava alterado, mas não tinha medo. É estranho!
Passado exatamente um mês após a grande catástrofe e curiosamente no dia 11, mas agora de Abril, outro grande sismo aconteceu e lá estava eu a pensar que podia ter sido melhor ter ficado em casa.

3º Dia

Eram cerca das 5 horas da manhã já eu estava acordado, não sei explicar porquê, mas é costume acordar mais cedo do que o necessário quando tenho que me levantar por causa dum qualquer compromisso.

Já tinha preparado o saco do desporto com o meu Aikidogi na noite anterior, agora era só vestir-me e ir apanhar o Metro na estação Touchomae.
Assim que cheguei ao rés-do-chão fui a uma loja de conveniência e comprei uma garrafa de água e uma sanduíche de arroz envolta na alga marinha wakame, era quase sempre assim o meu pequeno-almoço para ir comendo pelo caminho.

Tinha feito um estudo do trajeto na véspera e agora ia ver quanto tempo é que levaria a chegar ao local do treino, tinha esperança que seria muito menos tempo que a viagem de estudo da véspera, mas mesmo assim levantei-me e pus-me a caminho às 5.30 da madrugada. Estava a sair do Hotel cerca de uma hora antes de começar o treino "asageiko" com o Doshu Ueshiba em Wakamatsu.

O Metro arrancou da estação às 5.45 e passados cinco minutos estava na estação de Wakamatsu/Kawada, foi perfeito cheguei muito cedo. Dali daquela estação de Wakamatsu ao Hombu dojo eram cerca de 5 minutos, o que queria dizer que iria chegar às 6 horas da manhã ao local de treino.

O tempo pela madrugada estava frio, mas não era um frio que não se pudesse suportar, talvez uns sete graus. Se estava frio para mim então o que deveria pensar dos sem-abrigo que eu tinha encontrado a dormirem na rua, unicamente com uma simples manta sobre o corpo!

Quando cheguei ao Dojo já havia uma dezena de praticantes a aquecerem o corpo enquanto o Doshu não iniciava a classe das 6.30h. Eram praticantes na sua grande maioria de meia-idade, homens com mais de 40 anos de idade que antes de irem para o trabalho iam treinar Aikido com o Doshu Moriteru Ueshiba.
Após entrar no tapete fiquei sentado de joelhos (seiza) ao lado dum senhor que deveria ter uns 70 anos de idade. Assim que o Doshu deu a técnica para treinar, aquele senhor convidou-me para ir treinar com ele e como é natural aceitei. Que surpresa, aquele senhor chamava-se Tanaka e tinha 72 anos; disse-me ele num perfeito Inglês.

Continuámos a treinar e pelo contato com aquele homem eu pude compreender o que será o meu corpo aos 70 anos, duro que nem uma pedra, sem flexibilidade, sem articulações flexíveis, mas apesar do seu corpo estar assim ele era um homem cheio de vontade, com um espírito de guerreiro.
Quando chegar aos 70 anos de idade quero continuar a treinar Aikido e irei sempre o fazer os meus treinos até que seja possível mover o meu corpo. Não concordo com o sistema de vida que as pessoas do nosso País adotam, na sua maioria fazem uma vida de trabalho para casa e de casa para o trabalho, desprezam o exercício físico mesmo depois de reformados.

Depois de acabar o treino (eram 7.30h) fui para o balneário e tomei um banho de água fria. Sim água fria porque ali naquele Dojo não há água quente para ninguém. Quem quiser tomar banho tem que o fazer com água fria, mas eu já estava à espera, porque já o sabia de antemão devido a uma visita efetuada a este lugar com o meu Mestre em 1999.

O regresso ao quarto foi feito pelo mesmo caminho, mas com uma novidade. O Metro parou sem razão aparente a meio do percurso, achei que aquilo era perigoso a meio do percurso parar a composição, nunca tinha visto tal acontecer, mas de novo surge uma voz dentro da composição pelos altifalantes anunciando que estava chegar um sismo e pedindo por favor para as pessoas se segurarem.

Incrível que organização, pensei.
O sismo abanou tudo um pouquinho e desapareceu passados poucos segundos e por estranho que possa parecer fiquei com a ideia que a composição arrancou seguindo atrás do sismo.

Eles sabem qual o percurso que o sismo vai ter e avisam tudo e todos para o fenómeno. É claro que debaixo do chão dentro do Metro mesmo com as portas abertas (Eles abriram as portas para a chegada do sismo) é de pensar nas possibilidades de salvação, se fosse um dos que destroem tudo à sua passagem não teria possibilidades de sobreviver.

Mais uma vez veio à minha cabeça as palavras de amigos e familiares, dizendo que era de louco visitar o Japão quando todos estavam tentando sair de lá o mais rápido possível.

Recordo que no Dojo tinham olhado para mim  com alguma surpresa e admiração no primeiro dia que lá apareci. Eles tinham visto todos os estrangeiros abandonarem os treinos e voltarem aos seus Países de origem. Durante aquele tempo, desde que se deu a grande catástrofe do 11 de Março nenhum estrangeiro visitante tinha aparecido na Hombu Dojo e agora aparecia ali eu todo sorridente e pronto para treinar todos os dias. Por isso os comentários foram do género, ou és louco ou corajoso.

Já no quarto do Hotel tomei um longo banho de imersão como precaução, sabia que iria sentir os músculos todos doridos no dia seguinte, porque o tapete onde treinamos na Hombu Dojo mais parece de madeira. O Dojo com aqueles tapetes(tatamis) de palha de arroz prensada é de facto duro, muito mais duro do que os que usamos em Portugal. Um treino de 1 hora sem interrupções num tapete daqueles é para colocar o corpo todo envolto em ligaduras porque é quase sem interrupções o grande número de quedas que damos por minuto a treinar durante uma hora. Para quem faz aqueles treinos diariamente já não será problema porque aos poucos o corpo habitua-se, mas para quem treina em tapetes de esponja de alta densidade(como faço) não se adapta em dois ou três dias.

4º e 5º DIA

As dores eram a minha companhia diária, depois de ter iniciado os treinos e continuar sem interrupções, comecei a sentir que me doíam todos os músculos, especialmente os músculos das pernas.
Não admira que os músculos estivessem doridos é normalíssimo, porque qualquer corpo após ser sujeito a uma prova de grande esforço e desgaste físico precisa no mínimo de 48 horas para recuperar a tonicidade e as tais 48 horas eu não dava ao meu corpo.
Queria treinar todos os dias sem interrupção e se fosse passar um dia ou dois sem treinar, seria considerado por mim um desperdício de tempo. Eu estava ali para participar no maior número possível de treinos com o Doshu Ueshiba e era isso que pretendia fazer, custasse o que custasse.

Todos os dias às 5 horas da manhã acordava e levantava-me da cama de imediato, sem negociações com o corpo, a vontade imperava acima de qualquer preguiça ou falta de vontade.

Naquele 4º dia de treino, sentia enorme dificuldade em caminhar nos primeiros minutos, ali dentro do quarto e para aliviar as dores já tinha colocado um creme para o aquecimento muscular sobre as zonas mais doridas das pernas e ombros.

A vida dum atleta é acompanhada de muita dor e as dores musculares são simplesmente dores que nos fazem sentir muito mal como qualquer outra dor, mas sabemos que passam e que voltaremos ao normal com descanso.

Saí do meu quarto e caminhei na direção do elevador como de costume, sem reparar nos olhares das outras pessoas que me observavam com alguma curiosidade e provavelmente com alguma pena por causa do estado de enfermidade que aparentava.
Movia-me com dificuldade e devagar com o rosto crispado pelo desconforto das pernas.

Já dentro do Metro e sentado à espera que a composição arrancasse, decidi pedir a um Japonês que me filmasse a dizer adeus ao pessoal, é claro que o senhor não me compreendeu e só o fez porque fiz uns gestos mímicos demonstrando o que devia fazer.

Custa a crer esta realidade, mas já estive mais que uma vez a explicar o que pretendia em Inglês escrevendo num papel para depois o Japonês ler e responder à minha questão escrevendo o que queria dizer-me em Inglês.

De acordo com o que me disseram, eles os Japoneses têm muitos anos de Inglês nas escolas, mas pouco falam nessa língua estrangeira e também poucas vezes ouvem Inglês, porquanto os filmes e tudo o que passa nos diversos canais da televisão é tudo dobrado e falado em Japonês. Por isso não admira que prefiram ler e escrever para se entendem com os forasteiros.

Quando ia a caminho do Dojo, notei mais que uma vez várias bicicletas no chão, arrumadas a um canto do passeio e não pude deixar de reparar que todas estavam sem cadeados. As bicicletas são muito usadas pelos jovens que se deslocam de casa para as escolas ou para os empregos, deixando-a depois a um canto se decidirem ir beber um copo ou ir a qualquer lugar em que precisem de outro transporte.
O mais estranho é que ninguém as rouba, nem mesmo os mais necessitados que dormem na rua e ainda mais interessante é que passados dois ou três dias quando voltam ao lugar, lá encontram a sua bicicleta intacta.
Em Osaka fazem exatamente o mesmo e quando perguntei a um aluno do meu falecido Mestre se nunca tinham perdido a sua bicicleta, a resposta foi não, nunca a perderam, o que acontece algumas vezes é esquecerem-se de onde a deixaram e já aconteceu a muitos daqueles jovens voltarem ao lugar passado um mês e ainda lá estar a sua bicicleta à sua espera. É incrível mas é verdade!

Penso que estes casos explicam-se pelo poder de compra deste povo, porque se quiserem podem comprar 2 bicicletas no mesmo dia ou se quiserem podem comprar uma bicicleta todos os dias, é evidente que não o fazem porque teem mais onde gastar o seu dinheiro.
O mesmo acontece com os sapatos que ficam à porta da maioria dos estabelecimentos comerciais sem que ninguém lhes toque. Para mim foi uma admiração ver sapatos ao lado uns dos outros, do lado esquerdo da porta de entrada dum Oculista, num Centro Comercial. Ninguém precisa de roubar os sapatos seja de quem for, porque pode com facilidade comprar os pares de sapatos que quiser e se for ao caixote do lixo poderá encontrar sapatos ainda novos que foram jogados fora por não estarem mais na moda.

No Dojo conheci outro Japonês, era uma senhor com o nível 7º Dan do cinto preto, que me convidou para treinar com ele, sem dúvida muito simpático e pelo que pude observar, era amigo dum outro com quem tinha treinado no dia anterior.
Assim que o treino acabou fui convidado para ir tomar um café por esse senhor Watanabe e claro aceitei, mas tentei juntar o senhor Tanaka com quem tinha treinado no primeiro dia, o que não foi difícil porque ambos falavam "algum" Inglês.

Não podia desejar mais; tinha sido convidado e tinha juntado vários Japoneses ao meu redor num convívio, todos 7º Dan de Aikido e com muitos anos de vida e de prática da modalidade, curiosamente todos falavam da sua experiência de terem conhecido o fundador do Aikido e de terem treinado sobre a sua orientação técnica.
Como era um convidado não me deixaram pagar a despesa nem sequer a minha despesa, a qual foi paga pelo senhor Watanabe.

Naquela manhã fui de boleia até ao Hotel Washington no carro do Sr. Watanabe, decididamente foi um excelente momento. Entrar num circulo de amizades num País estrangeiro é tão difícil, como difícil é estabelecer uma amizade sincera.

No dia seguinte fui convidado por outro senhor do Aikido para treinar com ele, este caso foi do género convidar de véspera.
Yamashima san um 7º Dan que tinha um corpo forte como uma montanha, mas duma simpatia admirável. Este senhor já tinha viajado para a Europa e conhecia vários Países, no entanto não conhece Portugal e por isso apressei-me a convida-lo a visitar um dia o nosso Portugal, falando-lhe de seguida da boa comida em especial do bom peixe que temos, tal como o Japão. Ele retorquiu dizendo que o Japão também tem bom peixe, claro que concordei com ele e acrescentei dizendo que a diferença é a de que em Portugal ele é meu convidado.

Fomos todos no fim da aula tomar o pequeno-almoço e pude observar que o grupo era agora de 5 homens, era o Sr. Watanabe, o Sr. Muria, Sr. Yamashima e o Sr. Tanaka o qual tinha sido o primeiro do grupo a abordar-me no Dojo.

Desta vez quem me trouxe ao Hotel foi o senhor Yamashima, viemos a conversar pelo caminho num Inglês em "slow motion", mas que era o suficiente para nos entendermos. 

Já no meu quarto e depois Comida de montra, feita de cera.dum bom e longo banho de imersão naquela mini banheira, liguei-me à Internet para comunicar com os meus amigos e transmitir-lhes as novidades. Era formidável poder comunicar com as pessoas que estão a nós ligadas pelo mesmo ideal e em especial quando se está num País estrangeiro sem ligação às notícias do Mundo.

Naquela manhã fui almoçar num pequeno Restaurante no Piso-2 do Hotel e escolhi para o almoço um prato da gastronomia Japonesa, cujo nome é Gioza e Chiookaton, acompanhado com uma imperial ou cerveja em copo, ficando a refeição pela módica quantia de 1800 ienes, quase 18 euros.

Após o almoço fui dar uma voltinha pelas redondezas, para descontrair os músculos em movimentos diferentes dos que utilizei nos últimos dias com os treinos de Aikido.
É um erro ficar inativo sem fazer qualquer movimento quando se tem os músculos doridos, é muito melhor movimentar-se em passeio calmos e longos para assim dissipar o ácido lácteo acumulado nos tecidos da massa muscular.

O fim da história.

Todos os dias levantar cedo às 4.30h da manhã passou a ser um hábito e talvez por causa do fuso horário nunca senti dificuldade em levantar-me da cama. Na realidade o meu corpo estava muito fraco, não conseguia dormir quando podia e os treinos diários e intensos estavam a deixar tudo dorido.
Caminhar pela manhã era um enorme sacrifício e muito maior sacrifício era começar os exercícios no Dojo, mas a a minha decisão de não faltar a um único treino estava tomada e não a iria alterar.

No Dojo todos os dias fazia uma nova amizade e por estranho que pareça o método de treino que utilizam é estimulador para o criar de amizades durante o treino. Nós em Portugal mudamos de praticante de técnica para técnica e eles no Hombu Dojo manteem do principio ao fim da aula sempre o mesmo colega de treino, o que quer dizer que durante quase uma hora treinamos com a mesma pessoa.
Este método poderá ser uma oportunidade para desenvolver uma amizade, mas se acontecer não nos entendermos com o praticante poderá tornar-se num momento desconfortável, como o que sucedeu comigo numa aula à tarde em que fui convidado por uma senhora a treinar com ela e depois não nos entendemos durante a prática.

Pela primeira vez estive a treinar com uma pessoa do sexo feminino  e não nos entendemos durante o treino sobre o movimento a utilizar. Talvez parte da culpa fosse da técnica demonstrada pelo seu sensei a qual não era de fácil aplicação para quem nunca tivesse praticado aqueles métodos de treino.

Ao voltar para o hotel vinha um pouco dececionado com o treino daquele Mestre, porque tinha depositado uma boa parte da minha esperança em ter um treino inovador e interessante e afinal tinha ficado surpreendido pela negativa.
Nem sempre gostamos do que outra pessoa nos oferece e quando isso acontece não sabemos como lidar com esse desconforto. No Aikido como em muitas  outras coisas da vida, nem sempre nos sentimos bem com os métodos utilizados pelo sensei (professor), poderá acontecer haver quem goste imenso e como é natural poderá também acontecer quem não goste nem um pouquinho.

Já há muito que defini que o método de treino que gosto se assemelha ao tipo duro e marcial, dentro dum perfil semelhante ao treino aplicado aos antigos samurais, mas há quem goste do treino de Aikido com se fosse uma dança, sem grandes pressões ou cargas físicas sobre as articulações e nervos.

Entretanto durante aqueles dias passados já tinha estabelecido alguns contatos e isso deixou-me de algum modo feliz.

Passeio ao jardim "Gyoen Park".


 

 

 

 

 

 

 

Naquela altura do ano o Japão está sempre repleto de beleza natural principalmente com as árvores Sakura, as quais se enchem de flores. Talvez por isso o mês de Abril é sempre o que tem mais turismo pelas ruas, mas desta vez foi uma autêntica surpresa, porque não via turistas em lado algum. A catástrofe que se tinha abatido sobre o Japão tinha feito com que todos os visitantes abandonassem o País e os que estavam para vir visitar o País que arrepiassem caminho e desistissem da viagem.

Pela Internet soube que aquela zona de Shinjuko, tinha uns quantos parques e por isso depois de vir do treino decidi pôr os pés a caminho.

Encontrei uma placa que apontava numa direção indicando o nome dum parque, era esse parque que eu queria encontrar.
Sentei-me na beira duma montra para descansar as pernas e os pés, porque já tinha caminhado durante mais duma hora e ainda não tinha encontrado o parque. Ainda pensei pedir ajuda a uma Japonês sobre a localização daquele parque, mas por experiência já sabia que iria ficar ainda mais confuso.
Os Japoneses para explicarem qualquer direção a tomar geralmente apontam para onde devemos caminhar e quantas vezes devemos virar à direita e à esquerda, não têm por hábito sinalizar pontos de referência durante o trajeto.

Finalmente encontrei o "Gyoen Park" após mais meia hora de caminhar, o que me deixou com alguma alegria, confesso.
A entrada era a pagar, não era portanto um Parque com entrada livre, e cobraram-me cerca de 300 Ienes, qualquer coisa como cerca de 3 euros só para atravessar o portão.

O Parque era lindo, havia árvores Sakura por todos lados assim com um ribeiro e também várias centenas de Azáleas que ainda não tinham iniciado a floração. As pessoas eram às centenas naquele Parque, muitas tirando fotografias procurando os mais variados ângulos para as suas fotos.
Se existem pessoas que gostam de fotografar tudo, os Japoneses devem ser colocados no pódio, quanto a essa tendência. Não perdem um detalhe que seja de qualquer árvore coberta com flores e muitos juntam a sua imagem à das árvores, como recordação daquele lugar daquele momento.

Eram cerca das 14 horas quando me lembrei que não tinha comido nada e que estava naturalmente com fome, mas o cansaço e o mal-estar dos músculos doridos não me deixavam pensar no estômago com a habitual regularidade. De modo que decidi voltar à zona do hotel onde estava hospedado, o que não iria ser fácil, pensei.

Agora o regresso iria ser muito mais penoso porque estava dorido, cansado e com fome.

Pelo caminho comprei um pouco de comida, mas a comida não me agradou e joguei-a na caixote do lixo. Às vezes a comida não tem o sabor que gostaríamos de encontrar e o melhor é não a comer, assim evitamos desarranjos intestinais.

Após chegar ao hotel comprei comida pronta para levar e fui comer para o quarto, onde estive todo resto da tarde e toda a noite.

Visita a Ueno Park.

Dança tradicional Japonesa.

Mais uma vez após vir do treino decidi fazer uma incursão, desta vez fui para mais longe. Fui até Ueno após estudar a viagem que devia fazer no interior do meu quarto.

A viagem de Metro foi atribulada, porque quando tive que mudar de linha e após desembarcar numa estação, ia partindo a cabeça só para encontrar a saída para a outra linha de Metro.

Tóquio é enorme e com linhas de Metro subterrâneo a encontrarem-se com linhas de Metro de superfície nas Estações, mas o que é mais complicado é que nessas Estações partem para as quatro direções possíveis.
Era ridículo! Estava a olhar para o local onde queria ir visitar (da plataforma conseguia ver a entrada para o Parque) e não conseguia sair daquela plataforma de Metro de superfície, já tinha tentado no piso inferior e não  tinha encontrado a saída, por isso voltei ao ponto de onde tinha saído.

Algumas pessoas olhavam para mim com curiosidade, talvez pensando que eu estava com dificuldades em sair dali, mas isso era meu problema e nunca um Japonês se iria interessar em ajudar a resolver aquele meu problema. Para ajudar os "gaijin" os estrangeiros, existem os empregados da companhia do Metro.

Finalmente encontrei umas escadas que davam acesso direto para o exterior, mas eram tantas as escadas e sem indicações decifráveis, que sem um pouquinho de paciência e boa disposição não teria conseguido tão rapidamente.

Afinal foi uma viagem sem grande beleza, porque as Sakura nesta região de Tóquio já tinham perdido a sua beleza e estavam caindo e murchando. Ueno é mais a Norte e para lá chegar foi quase necessário uma hora de transportes.

No regresso e já dentro da carruagem do Metro fui surpreendido por uma voz nos altifalantes e pela paragem repentina da composição. É um pouco assustador quando uma composição do Metro pára no meio da sua viagem, ficamos sempre a pensar que poderá ocorrer um acidente com outra composição.

Aquela voz finalmente comunicou comigo num Inglês horrível, mas que deu para perceber que estava a chegar um sismo.

- Um sismo? Comentei eu num sussurro, não fossem os Japoneses ouvirem e pensarem que estava com medo.

Olhei em meu redor e vi as pessoas que estavam de pé agacharem-se e encostarem-se às paredes da composição enquanto outras agarravam-se onde podiam.

- Lindo serviço, um sismo e eu debaixo de terra numa composição do Metro. Comentava eu numa voz em surdina, mas ao mesmo tempo que sentia alguma preocupação.

O sismo chegou e foi de imediato embora, como se estivesse com pressa de ir assustar outro qualquer Português numa outra parte de Tóquio. Com aquela já era a segunda vez que era apanhado por um sismo dentro do Metro e apercebi-me que era menos assustador sentir sismos quando estamos à superfície e na rua.
Francamente era uma média de 2 sismos por dia e até aquela data só tinha vivido a experiência de 2 sismos intensos em toda a minha vida.

O regresso foi feito sem sobressaltos de maior e depois de chegar ao quarto foi descansar sobre a cama, mas não antes de aplicar um pouco de bálsamo para as dores das pernas e pés. Tinha andado a pé durante mais de 4 horas e estava a chegar à conclusão que deveria ter algo de masoquista, porque já estava a pensar no treino da próxima manhã.

Aquela manhã seguinte deveria ser a última que iria treinar, porque no dia seguinte seria para recuperar o corpo para a viagem de mais de 24 horas até Lisboa.

Oaioó gozaimasu! Gritei assim que cheguei ao vestiário, imitando os Japoneses que o fizeram todos as madrugadas.
É como se quisessem acordar os colegas de treino, pois normalmente quando chegam ao vestiário são 6 horas da manhã o que significa que tiveram de acordar 1 a duas 2 horas antes.

Aquele bom-dia foi dito com alegria, de certo modo gostava daquela vida de treinar tão cedo, era como uma forma diferente de viver a vida de desportista, que afinal adoro.
Sinto que sou feliz quando estou em atividades desportistas, mesmo dorido isso não afeta a minha disposição. Sinto que sou como um cavalo de corridas e que se um dia não puder correr com as crinas ao vento, será melhor abaterem-me.

O treino foi com muita boa disposição, porque já tinha feito umas quantas amizades entre os velhos praticantes daqueles treinos matinais e o convívio estava estabelecido ao meu redor. Curioso como aquelas pessoas se ligam através dum treino de Aikido matinal, mas só poucos repetiam os treinos diariamente, porque a grande a maioria treinaram unicamente em dias alternados e alguns só fizeram 2 treinos por semana.

Assim que o treino terminou foi feito a limpeza do Dojo, como de costume enquanto alguns varriam o tapete haviam outros a lavar os corredores e o chão do balneário. Era obrigatório em todos os treinos proceder-se aquele ritual, mas nunca consegui agarrar uma vassoura ou um balde, porque quando ia para o fazer já todos tinham os utensílios de higiene nas mãos.
Sem preguiça ou qualquer outra espécie de problema, os praticantes independentemente da sua graduação ou estatuto social procedem à limpeza do local sempre que terminava um treino.

O grupo tinha crescido desde a primeira reunião no snack bar, agora éramos 6 sentados á volta do pequeno-almoço e mais uma vez não me deixaram pagar, por ser um convidado havia sempre quem pagasse.

O regresso ao hotel foi feito de boleia, como tinha sido nas últimas duas vezes, agora que tinha encontrado algumas amizades havia sempre quem se dispusesse a trazer-me ao hotel.

Naquele dia fui de novo fazer uma incursão a território desconhecido após ter descansado e comido o almoço no piso-1 do hotel.
Mais uma vez estudei o trajeto antes de pôr os pés a caminho, mas já sabia que iria encontrar mais umas quantas surpresas e dificuldades.

Visita a Hakihabara.

Nos folhetos sobre locais a visitar tinha encontrado aquele nome e também dizia que era a maior cidade do Mundo sobre eletrónica.
Que se iria encontrar muitos jovens vestidos a imitarem as figuras da banda desenhada Japonesa "Manga".

Haihabara ficava um pouco longe e iria ser necessário trocar de linha de Metro em Ueno Okachimachi que segundo o mapa tinha ligações para outros ramais do Metro.
Quando cheguei aquela estação procurei a outra linha, portanto eu vinha da Oedo Line e deveria apanhar Hibiya Line, nada difícil segundo o mapa que tinha comigo.

Assim que desembarquei dirigi-me para a saída seguindo as indicações das setas e meti o bilhete que tinha adquirido no princípio da viagem na ranhura da máquina, que controla as saídas da estação.

A máquina engoliu o bilhete e não me devolveu deixando-me um pouco incrédulo, porque segundo as minhas expetativas aquele bilhete deveria ser útil para chegar ao meu destino.

Comecei a olhar ao redor e não vi o acesso à Hibiya line sendo por isso obrigado a procurar por ajuda no controlador de passageiros da Estação do Metro.
Este controlador de passageiros está normalmente sentado num pequeno cubículo à espera que a máquina dispare o alarme por utilização indevida do bilhete. É do género de pessoa que quase se deixa dormir por nada ter que fazer, porque raramente o Japonês se engana na aquisição do bilhete e se comprou um bilhete para uma estação e sai noutra vai de imediato ter com aquele senhor antes de tentar passar pela máquina de controlo.

Quando apontei para a cidade que queria ir visitar o senhor dirigiu-se para a porta da rua e chamou-me apontando de seguida para um caminho a percorrer que não seria muito longe dali.

Andei uns 10 minutos e já começava a duvidar encontrar a outra estação quando de repente vi outro sinal no passeio indicando a estação de Metro.
Assim que cheguei foi fácil embarcar na direcção que pretendia e passados uns 3 a 4 minutos já estava a desembarcar. É admirável como nos deslocamos duma cidade para outra em 3 ou 4 minutos, era como quando estive em Izumisano na Perfeitura de Osaka e queria ir a Osaka, passando por diversas cidades sem nunca passar por terrenos baldios porque as cidades estavam todas ligadas umas às outras.

Fiquei admiradíssimo com o número de jovens Japoneses que havia a circular naquela cidade, podia-se dizer sem margem para dúvidas que aquela era a cidade da juventude, para além de ser considerada a cidade da eletrónica. Confesso que nunca tinha visto tanto jovem junto a circular nas ruas, como ali naquela cidade.

Por todo o lado havia estabelecimentos de artigos de eletrónica, não era só uma avenida como em Osaka eram todas as ruas e becos, sem dúvida impressionante.
Por curiosidade tentei encontrar alguma novidade, mas sem sucesso, longe vão os tempos de 1998 em que quando visitei o Japão pela primeira vez, em que pude concluir que o nosso País deveria estar atrasado em relação ao Japão uns bons 20 anos, no campo da teconologia e eletrónica.

Procurei por uma Pen de tamanho reduzido para o meu portátil, mas mais uma vez concluí que em Portugal era muito mais barato. Não me surpreendeu o preço porque devido ao seu nível de vida tudo era mais caro no Japão que em Portugal.
Comprar fruta no Japão fazia-me sentir ridículo pelo preço que tinha que pagar, imaginar que só as bananas tinham um preço acessível e que mesmo as bananas custavam cerca de 3 euros umas três ou quatro bananinhas! Portanto, só para se tenha uma ideia, o preço de 1 quilograma de bananas eram cerca de 10 a 12 euros, dependendo da qualidade do produto.

Depois de ter passeado pela baixa da cidade decidi voltar para o hotel, estava muito cansado e os pés acusavam-me de estar a abusar das articulações dos tornozelos. Penso que é impossível ignorar a idade do nosso corpo, nada se compara a outros tempos já vividos neste meu corpo e agora se o esforço é para além do período normal começa a queixar-se de tal modo que me sinto na obrigação de parar e sentar-me em qualquer lugar.

Encontrar a estação do Metro foi outro teste à minha paciência porque as referências que tinha assinalado pelo caminho que ia percorrendo não as conseguia encontrar de novo. De repente o meu olhar deparou com um edifício de cor amarela e bem alto que era, assim já sabia o caminho de volta e comecei a caminhar naquela direção, com aquele indicador já sabia que a estação do Metro era por trás daquele edifício.

Quando fui para comprar bilhete fiquei estupefacto, agora sim estava tramado, nunca seria capaz da adquirir o bilhete de volta com aqueles mapas do Metro associados às linhas de comboio e Metro de superfície.

Decididamente precisava de ajuda, sem ajuda nunca iria sair daquele lugar ou então iria parar a qualquer lugar do Japão longe do meu hotel e de Shinjuko.

A senhora a quem me dirigi era uma assistente de turistas, tinha o famoso chapéu amarelo e vestia o fatinho a rigor como a outra que tinha encontrado noutro dia. E tal como a outra falava Inglês de forma correta e desinibida.
Formidável, pensei cá com os meus "botões".

Aquela assistente deu-me instruções para gastar a exata quantia que daria para viajar até ao próximo transbordo do Metro.
Na posse do bilhete atravessei o controlo e encaminhei-me para a linha Hibiya Line, mas de novo fiquei desorientado quando entrei num enormíssimo largo com centenas de pessoas ao meu redor e a cruzarem-se umas pelas outras, era definitivamente o caos.  Tinha perdido as orientações e não conseguia ver nada distante de mim, era daquilo que o meu Mestre e amigo me tinha falado uma vez que tínhamos vindo a Tóquio e era por aquilo que ele se tinha recusado a sair da proximidade da estação dos autocarros quando o convidei para darmos uma volta pelas redondezas.
Perdido! Foi assim que me senti.

Ao fim de uns bons 20 minutos e depois de andar de onde tinha vindo acabei por encontrar a entrada para a famosa linha do Metro.
A partir dali já não houve mais problemas e ainda fui dar uma volta pela cidade onde tinha que fazer o transbordo, o que não deixou de ser mais uma abuso para o meu corpo, em especial para os meus pezinhos que estavam imensamente doridos.

A noite das dores.

Ao chegar ao quarto deixei-me cair em cima da cama e assim adormeci sem querer de saber de mais nada, nem sequer o lavar dos dentes foi contemplado com a minha atenção. Nada mais me interessava que não fosse descansar e dormir, era um abandono total do meu corpo que tinha dado ordens para se autodesligar.

Quando eram 2 horas da manhã acordei com dores no baixo ventre e quando me pus de pé para ir à casa de banho senti uma dor terrível vindo do meu pé direito. Ali estava a "fatura" para pagar e eu sem saldo para poder corresponder às exigências.
Durante anos vamos abusando do corpo contraindo pequenas lesões às quais não damos a devida importância assim como a outros aspetos da nossa vida. Quando se chega a uma idade mais avançada as pequenas lesões surgem como que a cobrar uma "fatura" pelo falta de cuidado a que foram votadas em tempos.

Eram 8 horas da manhã e as dores não tinham desaparecido, mesmo após ter tomado analgésicos e ter colocado uma pomada sobre o tornozelo inchado. Por sistema levo sempre comigo medicamentos que poderão ser úteis em caso de problemas de saúde e ali estava eu com imensos problemas por solucionar.

Agora sim estava seriamente preocupado porque no dia seguinte tinha que embarcar na viagem de avião de regresso a Portugal e com aquelas dores, em especial com aquele pé inchado, iria ser um autêntico inferno deslocar-me pelo Aeroporto.

As dores reduziram um pouco e como já tinha pensado fui até a Wakamatsu para a despedida da Hombu Dojo e do Doshu Moriteru Ueshiba.
A viagem de Metro fez-se sem nada de especial a acrescentar, o pior foi quando estive que estar sentado com as pernas cruzadas a assistir à aula durante cerca de 1 hora, parecia que tinha um cão a morder aquele tornozelo direito, sendo por isso obrigado a levantar-me e a caminhar por breves segundos.
Sempre que me punha de pé havia logo quem viesse aconselhar-me a estar sentado, era obrigatório estar sentado enquanto o Doshu estivesse na aula.
Os praticantes que a isso me obrigavam não me conheciam dos treinos que tinha feito durante toda a semana e pensavam que era um gaijin(forasteiro).
Esses praticantes só tinham vindo treinar ao Domingo e por serem Japoneses tinham a certeza que eu tinha que ser corrigido de imediato sempre que me levantava.
Eu estava assistir à aula e assim continuei até ao fim da aula acabar, sendo por isso obrigado a mostrar o meu velhinho Yudansha card onde se podia ver que era um 5ºDan e para me ajudar o Doshu veio dizer que era um Sensei Português. Foi o melhor que podia ter acontecido porque a partir daquele momento deixaram-me em paz.

O Doshu Ueshiba perguntou-me o que se passava e eu indiquei-lhe o tornozelo inchado dizendo de seguida em Japonês.
 - koko itai desu. (Dói aqui)

Quando a aula acabou o Doshu mandou-me chamar por um dos jovens para tirar uma foto frente à moldura do seu avô e assim terminou mais uma aventura duma viagem atribulada, mas ao mesmo tempo adorável e rica de acontecimentos memoráveis.
O regresso ao Hotel foi horrível, a distância que tive que percorrer até à Estação do Metro tinha levado cerca de 35 minutos em vez dos habituais 5 minutos devido ao tornozelo inchado, assim como da Estação do Metro até ao Hotel.
quando cheguei ao quarto tomei dois comprimidos para as dores e coloquei mais creme analgésico, mas as dores não me davam descanso. Acho que adormeci por uma hora ou pouco mais e de imediato olhei para o relógio pensando como iria viajar naquelas condições.

De madrugada no dia em que fazia mais um aniversário as minhas dúvidas era se iria para o Aeroporto ou se  dizia na recepção do hotel para me chamarem um médico. As dores do baixo ventre eram intensas e o tornozelo doía-me imenso, já tinha tomado 2 comprimidos para as dores (Paracetamol 500) e ainda não tinham parado, o mal-estar era horrível.
Sabia de certeza que se fosse para o hospital não iria embarcar naquele voo para o regresso a Lisboa e entrar num hospital Japonês não era para mim uma boa ideia.

Quando chegou a hora encaminhei-me para limusina que me levaria para o Aeroporto e assim sofrendo com todo aquele mal-estar embarquei com destino a Lisboa. O avião fez escala noutro aeroporto antes de aterrar em Lisboa e ao chegar a Helsínquia na Finlândia ainda tive que andar com a mala durante mais de 30 minutos, já não tinha nada para as dores e apetecia-me chamar alguém do aeroporto para me levar para o Hospital.
Sem queixume nem choro fui suportando todo aquele inferno interior e assim chegou a hora de apanhar o voo para Lisboa onde cheguei quase passadas 24 horas após ter saído de Shinjuko.

Depois de muitos anos a treinar Aikido desenvolvemos a resistência à dor e adquirimos algum autocontrolo por isso é raro gritar ou fazer qualquer som quando estamos em sofrimento. Na prática do Aikido ao longo de muitos anos também experimentamos muitos momentos de dor os quais apesar de  ser passageiro não deixa de ser uma forma de treinar a nossa mente e espírito para suportar momentos como estes que vivi nesta viagem.

No Aeroporto de Lisboa tinha à minha espera o meu filho Rodolfo e o meu amigo e colega de Direção João Asseiceira o qual me conduziu até ao meu lar.

É dos melhores momentos da viagem quando regressamos ao ponto de partida e temos à nossa espera pessoas nossas amigas.

Obrigado

Orlando Marques

 

Bons treinos

Orlando Marques