As 3 palavras mágicas: de 09-01-2011

Umas das vantagens que existe de conviver com outros Povos é o de aprender os seus costumes, assim como aprender sobre os seus métodos de comunicação, e é sobre a comunicação que irei debruçar-me neste tema.

Inevitavelmente irei falar do Povo Japonês porque acredito que a sua educação é de longe superior à de qualquer outro Povo. A educação deste Povo é baseada no respeito pelo próximo e esse sentimento de respeito pelo próximo começa a ser aplicado desde a infância.

No nosso Pais e na na nossa cultura sempre vimos os que tinham uma formação académica superior comunicar com os do Povo tratando-os por tu, independentemente das idades. Ainda me recordo, era já eu casado e com filhos e os médicos dizerem-me: - Do que é que te queixas, meu rapaz.

Eu sempre fui um pouco rebelde quanto estes tratamentos e aprendi na minha relação com os Japoneses a usar sistematicamente as três palavras mágicas. Então, quando eu respondia tratando o Médico por tu, normalmente o rosto destas pessoas crispava-se, talvez ficassem aborrecidos ou até furiosos ou talvez entendessem. Hoje em dia é raro estas situações, mas ainda há.

Acredito que todos somos filhos de Deus e somos todos feitos da mesma matéria, todos nascemos nus e morremos quando chega a nossa altura. Quero eu dizer, que a formação académica ou o estatuto social, não nos torna diferentes uns dos outros. Devemos respeito uns aos outros sempre.

No IEFPS numa acção de formação, uma Doutora esteve reunido com os adultos quase três horas e nunca pronunciou as três palavras mágicas. Foi dura na comunicação e muito pouco acessível à interrogação, reagindo com azedume sempre que o adulto com dúvidas pedia para intervir. E isto porque a velocidade com que comunicava não permitia a nenhum dos presentes assimilar o que ela estava dizendo. Nunca perguntou nada a ninguém, usando a famosa palavra de quase todos os professores: - Compreendem? Ou: - Estão a compreender? Ou ainda: - Quem não compreendeu?

Nos cursos de formação pedagógica, ensinam-nos a ser um líder e não um Chefe, ensinam-nos métodos de comunicação. Acredito que é comum a todos os professores estas aprendizagens. Então e quem não é Professor mas tem que lidar com o público ou com o Povo em geral?

Será que não precisam aprender as três palavras mágicas? Será que só os Professores é que precisam aprender as três palavras mágicas?

Quando estou a ensinar às crianças, noto que nem um dos meus alunos usa as três palavras mágica. Já lhes disse muitas vezes que ia comprar um Papagaio e colocar em cima do ombro de cada um, mas primeiro ensinaria ao Papagaio as três palavras mágicas.

São tão difíceis de pronunciar, mas não é porque sejam longas, bem bem pelo contrário até são bem curtinhas.

As crianças têm que ser ensinadas e é aqui neste campo de intervenção que entramos nós os adultos, para que o futuro seja melhor em Sociedade.

Uma criança vem ter comigo e pede: - Mestre põe-me o cinto.
Eu digo-lhe todos os dias o mesmo: - Como é que se diz?
Eles repetem e repetem a mesma frase, até que um dos que estão na fila, alerta os restantes: - Diz, "POR FAVOR".
Então quase de imediato a criança diz a palavra e após o trabalho feito prepara-se para fugir correndo para a brincadeira. Não consegue correr e tenta de novo, e de novo não consegue se afastar, então exclama para mim: - Mestre deixa-me, larga-me.
Só te deixo ir embora quando dizeres a palavra certa. A criança fixa-me demoradamente, olha-me nos olhos, fica pensativo, e de repente vem-lhe à memória a cena da última aula, dispara: - Obrigado Mestre.

Outra situação em que as palavras mágicas são sempre exigidas é no inicio da aula e no inicio do treino individual, assim como no fim da aula e no fim do treino individual.

Mas, falta uma palavra e esta muitas das vezes é a mais importante de todas e é também a mais difícil de pronunciar. Nós os adultos também temos dificuldades em pronunciar esta palavra, umas vezes por teimosia, outras por orgulho ou vaidade. Curiosamente a língua Portuguesa tem duas palavras para esta palavra mágica, mas a segunda versão desta última palavra mágica é muito mais difícil de pronunciar. Ás vezes até parece que pesa toneladas, até parece que nos cola os lábios, mas tem um efeito tão pacificador, tão humanista, que nos faz ficar emocionados.

De novo no Dojo e de novo as crianças como exemplo.
Sucede com frequência magoarem-se nas brincadeiras, estranhamente magoam-se nas brincadeiras e nunca se magoam na prática do Aikido. Bom, mas como eu estava dizendo, quando sucede alguma criança vir ter comigo a chorar queixando-se do colega, eu faço sempre o mesmo. Chamo os dois e ponho-os frente a frente, questionando ambos, até que, o que magoou acaba dizendo: - Foi sem querer.
Então se foi sem querer não tenho que te castigar, mas o que é que tens que dizer ao teu amiguinho? Pergunto.
A criança fica a olhar para mim por uns minutos e diz. - Desculpa.
Estás ouvir? Ele está a pedir-te desculpa e isso é um gesto muito bonito, agora não precisas de chorar mais. Digo ao agredido.
Às vezes o agredido continua a chorar e comenta: - Mas dói, ainda dói.
Então nesse caso vai ali para o canto chorar mais, chora até ser necessário. Chora muito, está bem? Digo-lhe em tom de amiguinho.
É rara a criança que não passa as costas das mãos pelos olhos e vai juntar-se ao grupo das brincadeiras, terminando de imediato de chorar. Chorar não é grave nem aborrecido, mas não devemos proibir nem dar mimos. Devemos deixar essa decisão para o próprio, isso irá criar um vazio no seu ego o que provocará uma injustificação lógica para a continuação do acto de chorar.
Quando somos Pais jovens (Já vi alguns), damos mimos, em especial a Mãe é quem faz mais a cena dos mimos. Os mimos faz aumentar o choro. Enquanto outros berram aos ouvidos da criança gritando bem alto: - Se não te calas ainda "levas".
Há ainda os que negoceiam com as crianças: - Se te calares dou-te "isto" ou " aquilo".
Se o choro for motivado pelo dor da doença é inevitável o choro e nesse caso todos os Pais são pacientes e tolerantes.
Dos meus quatro filhos houve um que era o mais chorão e birrento, fazia birras com facilidade e chorava facilmente.
Nos lugares públicos é muito complicado, porque incomodamos os outros e os outros começam a mostrar o seu desagrado.
Isto aprendi com o Povo Japonês, eles nunca levantam a voz ao filho e afastam-nos das outras pessoas, ficando a sós com a criança.
Peguei nesse filho ao colo e trouxe-o para o exterior do Restaurante, fiz o que me foi possível para o acalmar e faze-lo parar de chorar e só depois voltei a sentar-me na mesa do Restaurante.
Já ouvi mais que uma vez senhoras criticando, dizendo que os Pais não sabem educar os filhos, que tinham tido dois filhos e que nunca tiveram que aturar aquelas situações. Que nunca as suas crianças deram tal "espectáculo", tinham pena era das crianças, etc. etc..
É claro que estão erradas as pessoas que pensam que podem evitar birras ou choros desenfreados de crianças de 2, 3 ou 4 anos de idade.
É a sua natureza que os leva a funcionar assim, ainda recordo dois dos meus filhos que riam de tudo quando eram dessas idades, a tudo achavam graça. Não me lembro de birras ou choros desse dois, nem mesmo em bebés, excepto quando tinham qualquer dor.

Vamos agora à palavra, "Perdão".
Há muitas pessoas a pronunciar a palavra "Perdão", mas soa muito mais como uma agressão que como um pedido de desculpas profundas e sinceras. Devido ao tom da voz ficamos com a ideia de que se não perdoamos, vamos levar uma paulada na cabeça. Isto quer dizer que o orgulho e a vaidade são os sentimentos dominantes e não existe o arrependimento ou o lamento humilde.
Após uma refeição ou mesmo durante a refeição a pessoa tem um arroto (Dizem que o povo Árabe considera uma ofensa o convidado não arrotar, após ingerirem a refeição.) e de seguida pronuncia a palavra mágica, mas o tom da voz nem sempre corresponde à intenção. O tom da voz faz toda a diferença em qualquer expressão.

As três palavras mágicas tem o condão de ajudar a tolerar os outros, de evitar as tentativas de ser impulsivo quando nos querem agredir através de palavras, é formidável.

A cultura do "Eu interior" leva-nos a descoberta do nosso próprio Ser e acabamos por descobrir que somos capazes de avaliar uma frase pela sua razão de existir e não pelo seu conteúdo. Mas se a frase nem sequer existir, então cria-se uma vazio de incompreensão inexplicável.
Qualquer Mãe sente o seus esforços compensados quando lhe dizem que a refeição estava saborosa, ou quando lhe agradecem pelo boa refeição. Mas quem é que faz isso hoje em dia? Alguns talvez.

Tem-se vindo a perder entre os mais novos o uso destas palavras mágicas e noto ainda mais que os demais, porque vivo com uma mulher Japonesa a qual sente na pele quando os meus filhos nos visitam. Apesar dos meus esforços eles raramente agradecem após ingerirem a refeição ou raramente agradecem quando são chamados para a mesa ou raramente perguntam se têm licença para se levantarem ou ainda raramente pedem seja o que for com a palavra por favor ou  raramente perguntam se podem entrar em casa ou fazem uma saudação audível à entrada no lar.

Pode-se dizer que são outros tempos, mas se os novos tempos não utilizarem métodos para melhorarem a comunicação entre os Seres humanos racionais, então para que servirá?
Perdendo os códigos de conduta estaremos a melhorar os métodos de conviver uns com os outros?
Hoje em dia é vulgar um filho(a) chegar a casa entrar e sair sem comunicar com os restantes membros da família que estão naquele Lar. Isto é comunicar? Isto é conviver?

Um filho(a) fecha-se no quarto e considera o seu espaço como seu território, fechando a porta à chave e não permitindo aos Pais entrar no seu "território" mesmo que lhe peçam. O que é isto?
É comunicação? É irmandade? É companheirismo? É família? Dizem que é o direito à sua independência, ao seu próprio espaço?! Com os Pais, com os irmãos numa casa de família?
Mas, estão todos sentados à mesma mesa, na mesma sala e são da família! Não criará este processo uma grande frieza na existência!

Vejam alguns dos códigos de conduta do Povo Japonês, são só alguns dos que eles usam e são todos baseados no respeito mútuo.

Gomen - Desculpe

Gomen nasai - Perdão

Gomen kudasai - Posso obter o seu perdão

Gomen do okakeshimashi

Ii desuka - Permite que o incomode

Shitsurei

Osoreirimasu - Preciso minhas coisas permita que o incomode.

Chotto Shitsurei

Otesu - Eu deixo-o cuidar ...

Oyurushikudasai - Por favor, quero o seu perdão.

Yurushite

Enfim, são de facto muitas as expressões e muitas mais ainda faltam aqui. Têm códigos de conduta para todas as pessoas da família, desde os Avós, Netos, Crianças dos outros, Pais, Chefes, Patrões, etc..

É evidente que nunca estaremos próximos deste povo quanto aos

códigos de conduta, mas pelos menos podemos tentar não deixar morrer no nosso mundo, as três palavras mágicas.

Mesmo que sejamos Doutores, Engenheiros, Serralheiros, Padres, não interessa quem sejamos na Sociedade, o respeito é devido a todos.

"Por Favor", "Obrigado", "Desculpe".

Se chegou ao fim deste tema lendo todo o texto, então peço que me desculpe ter-me alongado, e por favor contribua para a divulgação das três palavras mágicas.

Muito obrigado

 

Bons treinos

Orlando Marques