O conceito da violência: de 08-09-2010



Conceito.
No dicionário
s. m.
 1 - Mente (considerada como sede das concepções!).
 2 - Opinião, ideia, juízo (que se faz de alguém ou de alguma coisa).Futebol é desporto de combate, com agressões?
 3 - Dito engenhoso.

Violência.
No dicionário.
s. f.
 1 - Estado daquilo que é violento.
 2 - Acto violento
 3 - Acto
de violentar.
 4 - Veemência.
 5 - Irascibilidade.
 6 - Abuso da força.
 7 - Tirania; opressão.
Jogador de futebol em agressão com pontape na cara.
Violento.
adj.
adj.
 1 - Impetuoso; fogoso; à força.
 2 - Tumultuoso.
 3 - Veemente.
 4 - Irascível.
 5 - Arrebatado.
 6 - Intenso.
 7 - Brutal.

O conceito de violento é considerado pela maioria das pessoas como uma acção de agredir, de bater. Se analisarmos com paciência o que o Dicionário diz sobre violento ou violência, concluímos que nada indica que ser violento significa pessoa agressiva ou que agride.

As Artes Marciais são consideradas violentas e as pessoas que as praticam são consideradas violentas. Isto é um erro!
Já ouvi centenas de vezes que o Aikido é violento e que nós os que praticamos esta Arte somos perigosos. Isto é um erro!

Gostaria de esclarecer (se tiverem paciência, vontade e tempo, claro.) que uma Arte Marcial não Osensei em meditação.tem nada a ver com "desportos de combate" ou nem sequer podemos comparar uma Arte Marcial com um Desporto que era antes uma Arte Marcial. O Aikido ensina a viver em paz consigo e com os outros.

A Arte Marcial tem por finalidade a evolução do Ser humano na sua estrutura psíquica, tem também como objectivo o desenvolvimento do autocontrolo e nunca estimula o praticante a vencer o outro, mas sim a vencer-se a si próprio.
A competição nunca contribui para a evolução do Ser humano, quando se compete para ganhar medalha, troféu ou até dinheiro, o Ser humano não pode apelar aos seus sentimentos mais puros e elevados, nem poderá ver o seu oponente como um seu semelhante. Porquê?
Quando competimos, nós Seres humanos fazemos tudo para ganhar, a derrota nunca nos interessa, a derrota é humilhação a vitória é brilho e vaidade sem limites.
Por tudo isso tem que existir a Arte Marcial, para que façamos algo diferente quando quisermos. Algo que não empobreça a nossa espiritualidade, algo que nos faça sentir melhores por dentro.

Depois desta explicação, vamos falar não de violência mas sim de agressão física e verbal.

Quando será que você irá agredir? Sabe por acaso qual é o seu limite? Sabe quais são as palavras ou acções Um rosto enfurecido.que levará você a agredir?
A grande maioria das pessoas não se conhecem a elas próprias, nem sabem daquilo que são capazes de fazer.
Há poucos dias ouvi na Imprensa e li num jornal, a declaração duma pessoa que tinha matado outro Ser humano, um homem.
- Eu nunca pensei em matá-lo, não sou nenhum doido.
As pessoas que agridem ou matam não são violentas nem agressivas, a grande maioria são aparentemente calmos e passivos, nem se manifestam por palavras duras ou ofensivas muitas das vezes.
Um provérbio popular diz-nos: - Cuidado com o cão que não ladra, ou ainda, Cão que não ladra morde.

Não tenho intenção de comparar ninguém com um cão, no entanto se observarmos aquela pessoa que grita e até utiliza impropérios numa briga verbal, podemos concluir que essa pessoa ao agir desse modo está descomprimindo a tensão nervosa que está sentindo e isso é bom. Esta pessoa que grita e gesticula também irá calar-se e é nesse momento que essa pessoa se torna perigosa. Pela minha experiência, tenho constatado que as cenas de agressão sucedem-se depois de se fazer um breve silêncio entre as partes envolvidas na contenda.

Uma curisiodade.

Quando estou a ensinar a defenderem-se de atacantes com faca, acabo sempre perguntando aos presentes o que fariam depois de tirarem a faca ao agressor. Sabem por acaso o que a maioria responde?
A maioria dos praticantes respondem dizendo; deixavam o atacante ir em paz para casa. "É absurdo."
Absurdo ou insensato, porque nem fazem uma pequena ideia do estado de espírito que adquirem quando são ameaçados por um assaltante com uma faca. Se numa acção de total desespero tivessem de agir, usando com sorte, os conhecimentos de Arte Marcial, para não serem mortos pelo assaltante, estas pessoas nem se dariam conta que já tinham morto o assaltante e continuariam (em pânico) a espetar a faca no corpo do sujeito que as tinha ameaçado.

Quando treino com Katana real, sei que me posso cortar e esse conhecimento altera a minha adrenalina, mas não altera a minha visão, nem a minha perspectiva do espaço e dos movimentos do atacante. Mas isso é agora!
Sim é verdade, isso é agora. Recordo as primeiras vezes que usei katana real e sei que tive que combinar com o meu colega de treino para atacar devagar e com muita calma para me ir habituando. Antes de treinar com a  Katana real, treina-se durante alguns anos com a de madeira.
Uma vez numa demonstração fui cortado pela katana e só reparei que tinha sido cortado depois de ter acabado a demonstração. As pessoas gritavam e apontavam na direcção da minha mão que estava toda coberta de sangue.
O que se sente quando se é cortado em acção de defesa, em máxima adrenalina? Nada, não se sente nada.

O conceito da violência é visto por todos como algo que só os outros têm, também é verdade que este conceito é aplicado com mais frequência aos homens. No entanto as prisões das mulheres estão cheias de pessoas que foram condenadas por crimes violentos, talvez se deva dizer por crimes horríveis ou atitudes animalescas. Isto quer dizer que não são só os homens que praticam actos impensáveis para Seres humanos à imagem de Deus.

Pergunto neste momento quem é que é mais perigoso, quem poderá matar mais facilmente?

 - Uma pessoa que treina várias vezes por semana e durante anos uma Arte Marcial, que lhe ensina a dominar os nervos, que ensina a enfrentar agressores dos mais variados tipos usando as mais de mil técnicas que possui. Uma Arte Marcial onde aprende o autocontrolo e a sentir o perigo  antes mesmo que suceda, aprende como dominar um adversário sem ter que o matar. Uma Arte Marcial onde aprende a manter a sua mente calma, independentemente das circunstâncias que o rodeiam.

Ou

 - Uma pessoa que nunca treinou ou enfrentou qualquer estado de perigo, que ao primeiro grito ou agressão verbal fica tensa e nervosa com desejo de bater com toda a "raiva". Uma pessoa que rapidamente entra em pânico assim que lhe mostrarem uma faca, como forma de a ameaçarem, ficando com o raciocínio bloqueado, fazendo chichi nas pernas ou pior, sem ser capaz de pensar como salvar-se ou simplesmente pedir ajuda.

Se continuar a pensar que o praticante de Artes Marciais é o mais perigoso, eu vou confessar-lhe que concordo inteiramente consigo. Sem dúvida que é o mais perigoso! Mas para o assaltante ou agressor.

Quando se poderá utilizar a Arte Marcial em seu proveito?

A primeira vez que usei o Aikido para me defender era cinto castanho 1º kyu, portanto ainda não era cinto negro, o cinto negro obtive 2 anos depois.
A outra pessoa ficou muito magoada e com um braço inoperante, era o braço que trazia uma moca na direcção da minha cabeça, se me tivesse atingido não estaria agora a escrever estas linhas.
A Policia veio mais tarde ao meu local de trabalho para fazer perguntas sobre o sucedido, nunca mais fui abordado pelas autoridades. Porquê?
Existe a Lei, ninguém pode fazer justiça pelas suas próprias mãos, mas quando temos que agir em defesa pessoal e temos provas e testemunhas que o outro é que foi o agressor e atacou para matar, então nada temos que temer da Lei. Eu só me defendi e nem pus em risco a vida do meu atacante.

A sensação de uma luta de rua é horrível é medonha é assustadora, já fui obrigado a defender-me mais outras 4 vezes e de todas as vezes nunca fui agredido nem sequer com uma bofetada, pontapé, etc. Não há adjectivos suficientes para identificar o que sentimos numa situação de conflito físico na Coisas que enfurecem.rua, o medo é o primeiro a aparecer e é nesse momento que apelamos ao que treinámos e estudámos no "Dojo". Se o medo dominar-nos, estamos condenados a levar uma tareia ou pior.

A última vez que usei o Aikido foi para ajudar alguém que ficou estendido no alcatrão inconsciente e com o rosto irreconhecível de tanto soco apanhar daqueles tipos. Eram 2 tipos dos desportos de combate, eu já tinha passado os 40 anos de idade e eles eram pessoas para 25 ou 27. Safei-me mas foi um grande risco, acabei o conflito só com a minha camisa rasgada. Sabiam bater, essencialmente com os punhos, aguentaram as minhas técnicas sem pestanejar.
Entraram mais populares na contenda e depois todos desapareceram, deixando no chão o que tinha sido agredido.

Neste dois casos podemos ver em que situações se pode usar as Artes Marciais.
1º Em sua própria defesa
2º Em defesa de outra pessoa que esteja na condição de vitima.

O conceito da violência é de novo questionado.

Sempre que as autoridades investigam casos em que pessoas que praticam Artes Marciais são intervenientes.
A questão é sempre a mesma, é saber se não podíamos evitar ter feito isto ou ter feito aquilo, se foi realmente necessário ter posto a pessoa naquela situação ou naquele estado?!
Se levar o agressor ou assaltante ao Hospital ou chamar a ambulância, o que leva ao mesmo resultado, que é o de ser identificado pela Policia. A questão que se coloca é quem fez aquilo e não porque foi que aquele tipo entrou nas urgências. Se não tiver testemunhas em como agiu em defesa pessoal, está metido num grande sarilho, porque o outro está ferido e a usar os serviços hospitalares e se ele disser que o agrediu gratuitamente, vai-lhe sair caro.

Veja este caso com um meu aluno de Aikido.
 
Um ladrão assaltando um carro.O tipo estava a roubar-lhe o carro, ele viu e atacou o assaltante deixando-o inconsciente. Preocupado meteu o assaltante no próprio carro e levou o tipo à urgência do Hospital da cidade. Teve que relatar o sucedido ao Policia que estava de serviço e foi para casa.
Passados alguns dias foi chamado à Policia por ter sido acusado de agredir o outro tipo, ficou de boca aberta de surpreendido. O assaltante declarou que tinha sido agredido por ele, sem razão aparente, num puro acto de violência.
Quem estava ferido parece que tinha a razão do seu lado, ele não tinha provas a não ser o carro danificado com indícios de ter sido forçado.
Ofereceu dinheiro ao assaltante para desistir da queixa, o assaltante aceitou o dinheiro mas de nada serviu porque passados alguns meses foi chamado a tribunal, a Policia não podia retirar a queixa por tratar-se de uma agressão com internamento hospitalar e já tinha sido registado na esquadra a ocorrência.
Resultado!
O larápio recebeu uma indemnização por danos físicos e morais, e o meu aluno ainda teve que pagar as despesas ao Hospital e as despesas do Tribunal. Com um aviso do Juiz, de não tentar retaliar com o outro senhor, senão teria pena de prisão agravada por incorrer em 2º acto de violência.

Qual é a sua conclusão, que é que acha que faria?
Deixava que roubassem o seu carro?
Agredia e chamava testemunhas?
Chamava testemunhas primeiro e batia depois?
Chamava a Policia e aguardava pacientemente vendo o seu carro a ser estragado e roubado?
Chamava aos gritos ladrão ao ladrão e rezava para que o ladrão não viesse armado e lhe desse um tiro?
Ou, porque não é uma pessoa violenta e até muito pacifista. NÃO FAZIA NADA!

O CONCEITO DA VIOLÊNCIA É HUMANO E É USADO POR TODOS OS HUMANOS CONTRA TODOS OS SERES HUMANOS.


Orlando Marques