Kangueiko: de 26-01-2010

A palavra "Kangueiko"  é Japonesa como certamente já notaram, o seu significado é "Treino de Inverno", literalmente  que dizer, Kan = frio e Geiko = treino. Treino de Inverno ou Treino no Frio, não parece ter qualquer importância, afinal treinar no Inverno todos treinamos, seja que modalidade desportiva for, ninguém passa o Ano sem sentir o Inverno.

Fui futebolista desde juvenil até sénior, já tinha treinado e jogado com chuva, frio e vento, mas aquele tipo de treino "Kangueiko", feito descalço e parado durante uma hora, foi muito duro de suportar.

Era Janeiro do Ano de 1976, o Mestre Doshu Honda mandou-me perguntar à Classe de Aikido, quem estaria interessado em participar num treino muito especial. O treino começaria às 6.00h e teria a duração de uma hora e seria de Segunda-feira até Sábado, dizia eu à Classe, ao mesmo tempo que ele me transmitia num "difícil" Inglês. De imediato comentei  o início da hora, recordando que à Segunda, Quarta e Sexta-feira havia outra actividade desportiva que começava exactamente à mesma hora. O Mestre olhou para mim compreendendo que não tinha percebido e repetiu com um ar mais sério possível. - O treino começa de manhã!

Treino no frio - Neve a mais dura forma de treinar.Quando os praticantes ouviram que era de manhã, ficaram todos surpreendidos e até alguns preocupados, porque trabalhavam e pensaram que não seria possível a sua participação. Dum momento para o outro tínhamos cerca de 22 praticantes interessados em participar, eram todos adolescentes ou adultos, não havia crianças nesse tempo.

A sala onde treinávamos nesse tempo, era o pequeno pavilhão, que se situa no lado direito do portão principal do Clube Naval Setubalense. Aquele pequeno pavilhão ainda tinha visível o título "Mocidade Portuguesa" por cima do portão da entrada, foi usado em tempos por esta organização juvenil do tempo Fascista.

Na Segunda-feira seguinte levantei-me às 5.00h agasalhando-me o melhor possível para o frio que estava na rua. Do bairro onde morava até ao Clube Naval ainda levava cerca de 1/2 hora a andar a pé, tinha que sair mais cedo, eu é que tinha a chave do Pavilhão e não convinha ninguém estar à minha espera, com o frio que estava.

Quando cheguei ao local, o frio era mais intenso devido à brisa que vinha do Mar, o frio parecia que cortava o rosto. Todos os 22 compareceram ao treino e quando o Mestre disse que tínhamos que vestir o Dogui e ficar descalços, notou-se que muitos dos presentes não estavam à espera de ouvir tal coisa, ficar descalço??!!
 O Dogui estava gelado e a minha pele arrepiou-se toda quando o vesti, os pés estavam quentinhos até que entrámos para cima dos Tapetes do Dojo, foi impressionante verificar como ficaram gelados em poucos minutos. Alguns dos praticantes levantavam os pés como se estivessem a pisar picos, o frio era profundamente desagradável,  para aquecer começámos aos saltos e a esfregar com as mãos.

O Mestre mandou todos sentarem-se em "Seiza", começando por iniciar a Aula de seguida. Todos pensávamos que iríamos ter exercícios para aquecer e que rapidamente iríamos começar a suar, quando verificámos que continuávamos sentados e a fazer Técnicas de respiração e a auto massagem habitual das aulas de Aikido. Passado cerca de 1/2 hora deu ordem para nos pormos de pé e foi com muito custo que os pés mexiam, havendo alguns que se queixavam com os pés dormentes.
  Fizemos algumas técnicas tradicionais de Aikido, durante o restante tempo e quando era 7.30h da manhã, deu a aula por terminada. Todos os os praticantes se apressaram a vestirem-se, o frio fazia-se sentir em todo o corpo, a nossa cabeça não pensava noutra coisa, era horrível aquele treino.

Fui para o transporte público que me levou para o trabalho (Secil), na empresa tinha obtido autorização para chegar uma hora mais tarde, eles depois iriam descontar-me no meu salário, as horas perdidas durante aquela semana.

Na manhã seguinte levantei-me com o mesmo objetivo, fui o primeiro a chegar ao local chegando quase de seguida o meu Mestre. Naquela manhã o grupo de 22 praticantes tinha sofrido pesadas baixas, agora eram só oito praticantes os que ainda resistiam. Alguns desses praticantes nunca mais os vi, deixaram por completo os treinos de Aikido, simplesmente desapareceram, foi uma surpresa para o Mestre que não estava à espera desta reacção dos Portugueses. Eu compreendi o que tinha acontecido com os desistentes, eu próprio senti dificuldades em abandonar a cama e pôr os pés a caminho, mas uma vontade mais forte que o conforto do quentinho e a responsabilidade de ter outras pessoas lá à minha espera,  fez com que não parasse.

O Mestre não tinha frio e os seus pés estavam normais, enquanto os nossos pés estavam gelados. Na segunda sessão aprendemos o quanto é importante a nossa Mente para resistir ao desconforto daquele treino, o Mestre falou na sua experiência com o seu Mestre Koboyashi, como foi que dominou o sentimento de desconforto treinando naquelas condições. Aquela hora de treino passou num instante e quando nos apercebemos o quanto era interessante saber sobre todas aquelas técnicas de controlo da Mente, já a aula tinha terminado.

3º Treino - O sucesso.

As palavras que tinha ouvido e a demonstração que tinha visto sobre o controlo da Mente, ainda andavam a bailar no meu consciente quando me encaminhava para o Dojo. Talvez por estar com a Mente ocupada nessas instruções, não notei que naquela manhã estava mais frio que nas anteriores, podia-se ver os vidros dos carros estacionados na rua, com gelo na sua superfície.

Vesti o Dogui que estava muito mais frio que a minha pele e avancei para o Tapete com os pés descalços. Durante aqueles minutos já tinha iniciado o treino da mente, já tinha dominado as sensações de desagrado que a mente emite, o frio não perturbava mais o nosso raciocínio, todos os oito praticantes comentavam que não estavam em desconforto. A respiração especial com a língua em forma de "V" tinha ajudado imenso, assim como desviar a mente para outros objectivos, recusando aceitar a análise da existência duma temperatura desagradável, foi excelente.

Sábado -  Missão cumprida.

Naquela manhã havia uma estranha alegria entre todos os praticantes, o Mestre estava feliz com a nossa presença e mais tarde confessou-me que deixou de acreditar que chegássemos ao fim daquela semana de treinos. O kangueiko não é para todos, muito pensam que são capazes de participar nos treinos, no entanto, o frio elimina a grande maioria logo nas primeiras sessões, disse-nos o Mestre, enquanto tomávamos o pequeno-almoço no Café Central na Praça do Bocage.

Foi uma experiência inolvidável, foi uma lição sobre o controlo da Mente, senti que tinha ficado mais forte por dentro, senti que tinha mais confiança em mim e que era capaz de fazer coisas especiais nesta vida, nesta existência. Todos os restantes praticantes que tinham chegado ao fim mostravam alterações, no fim éramos só sete, um dos praticantes não pode completar por razões profissionais(?).

Mestre Saito - Kumitachi na neve.Vencer este tipo de batalhas faz dos seres humanos pessoas mais fortes em vários sentidos, há muitas batalhas numa existência e nem sempre conseguimos chegar à Meta.
  Nos nossos dias é muito difícil organizar um Kangueiko de um só dia, as pessoas estão mais comodistas e rodeiam-se de muitas coisas que lhes dão prazer. Costumo dizer que sempre que muda o tempo há redução de participantes nas classes, se chove as pessoas têm que se habituar à chuva e por isso não saem para irem treinar. Se muda o tempo para o calor é porque está calor e não apetece, mas o frio é sem dúvida o que provoca mais reduções nos treinos, com frio até os mais graduados ficam agarrados ao sofá, enrolados no conforto do Lar.

Porquê o Kangueiko?

Alguns poderão pensar no porquê de treinar nessas condições, não precisamos de passar mal para provar seja o que for, dirão alguns intelectuais Alguns outros poderão lembrar-se dos trabalhadores que noutros Países onde o clima é muito mais duro, são obrigados a trabalharem nas ruas sobre temperaturas negativas, até poderão dizer que, "isso sim, é que é sacrifício".
  Posso concordar com estes modos de pensar e até posso acrescentar que sei dar valor a trabalhar nessas condições, porque também já estive a trabalhar nessas (Fui obrigado, porque não tinha salário na Empresa onde era Chefe de Departamento.) condições na Holanda. Em 1996/97 a temperatura chegou aos 17 graus negativos e nem os fatos, botas e luvas térmicas impediam o sofrimento de estar na rua a trabalhar nessas condições. Era a construção de uma fábrica nova, construída por portugueses, italianos e holandeses, em 3 meses emagreci 17 quilos, só descansávamos ao Domingo e trabalhava-se 12 horas por dia. Esta é outra história.

Espírito é preciso ter Espírito, dizia o meu Mestre muitas vezes. Doshu Honda passou muito mal em Portugal, dormiu debaixo dos botes que estavam no cais do Naval, não tinha dinheiro para comer quanto mais para ir para uma Pensão. Apostou na ideia que iria conseguir fazer desta vez, cintos negros Aikikai em Portugal e com abnegação e sofrimento foi ficando por cá.
  O que é que "Espírito" tem a ver com o kangueiko? Poderão alguns questionar. É exactamente isso que representa o Kangueiko, uma forte estrutura psicológica capaz de suportar as mais duras condições existenciais, com que a vida nos quiser brindar.
  É um grande erro pensar que nascemos para viver no Paraíso, que vamos passar a vida de barriga para o Sol e que tudo iram ser alegrias e facilidades. Ninguém consegue impedir a chegada do sofrimento, o sofrimento faz parte da nossa existência e quando não sofremos directamente no nosso corpo, sofremos por aquilo que acontece aos que amamos, filho, pai, mãe, neto, irmão, etc.,.

Isto quer dizer que se praticar treinos tipo Kangueiko resistiremos melhor e com menos dor, ao sofrimento que vier a acontecer na nossa vida?

Aristóteles dizia:  Tudo o que nos rodeia é um meio cujo fim é o prazer.

O que Aristóteles dizia é verdade hoje e sempre, nós somos assim, o que fazemos tem que ser por prazer e se fazemos algo sem ser por prazer é porque somos obrigados.

Para participar em ações como o Kangeiko, é preciso ir mais além do vulgar modo de pensar sobre a existência e isso nem todos estão dispostos a pôr em prática.
  A questão com a interrogação é verdade, já vivi na pele essa experiência por mais que uma vez e até o meu Mestre já viveu recentemente uma dolorosa experiência, no seu próprio corpo.
  Quem olhar para o meu Mestre agora, não irá compreender, como foi possível recuperar de uma trombose (AVC) que lhe anulou todo o lado direito. Os médicos estavam e estão admirados com a grande recuperação do seu estado físico, curiosamente e anteriormente ao seu caso, também o Mestre Sasaki viveu a mesma experiência. Como é que ambos recuperaram as funções normais e ambos dão aulas e treinam actualmente com os seus alunos? Os seus médicos não têm explicação, como é que num espaço de 2 Anos voltaram ao normal.

Hoje em dia é raro um Dojo não ter uma temperatura agradável para os treinos. Há um local onde os praticantes treinam em condições de Kangueiko e esse Dojo é em Palmela nos Loureiros. Actualmente só 6 praticantes têm "Espírito" para se apresentar aos treinos, são admiravelmente fortes de Espírito e nem são cintos negros. O Ginásio é grande, amplo, alto e o frio gela tudo e todos, mas nada os faz parar de treinar.

Mente Sã em Corpo São.

Eu digo: Mente Sã Corpo São.

Para ler um texto de 1975, de tanto interessante não resisti  em colocá-lo aqui.



Orlando Marques