Homeless - Abandonados: De 28-10-2010

Abandonados ou sem lar "homeless", será a mesma coisa?

Já vi em vários pontos do Mundo o mesmo tipo de pessoas, desde o Japão passando pelo Bélgica e até no Canadá, em nada difere a vida destas pessoas.
Aqui entre nós também existe muitas destas pessoas e infelizmente a tendência é para aumentar. Se observarmos ao nosso redor a vida que passa em silêncio, poderemos concluir que há muitas pessoas abandonadas e a caminho do tipo de existência, dos Sem lar.


menino sozinho na rua.Há crianças sem lar por todo o Mundo, mas normalmente sem lar significa que não têm Pais ou familiares que olhem por eles, porque uma criança sempre atrai a atenção de alguém que lhe oferece um lar ou uma ajuda mais constante, já o mesmo não acontece com os adultos.

Este tema não tem nada de novo, assim como muitas outras centenas de temas até agora escritos, mas não deixa de ser mais um momento para aproximarmo-nos desta realidade, até porque nunca sabemos quando no futuro poderemos estar numa situação idêntica à de muitos milhões de pessoas consideradas, "Sem lar", "abandonadas" ou se quiserem um estrangeirismo "homeless".

Abandonados! Vamos começar pelos abandonados.

Abandonada é a pessoa que tem familiares em condições de o ajudarem e nada fazem por isso. Este tipo de pessoa existe em todas as camadas sociais de uma qualquer sociedade no Mundo, não havendo qualquer diferença dum País rico para um País pobre. E porquê?
Porque tem a ver com a nossa natureza humana e não com as nossas capacidades financeiras ou económicas. Se o abandonado foi ou é, uma pessoa simpática, humilde, meiga, simples, então será muito mais fácil recuperar a linha de apoio de alguém próximo ou dos seus familiares, mas se o abandonado for irascível, difícil de aturar, orgulhosa, mau feitio, etc., então neste caso será um caso perdido.

Caso perdido?!
Idoso abandonado numa cama do hospital.Será possível haver pessoas consideradas "caso perdido"? É verdade, e é nos Hospitais onde se encontra mais casos de pessoas abandonadas. Pessoas que ninguém sabe por quem chamar para vir recolher o idoso, pessoas que a idade e a doença as transforma num "Caso perdido". Como é possível existir um mundo assim?
Vejo com admiração, uma pessoa correr para o Veterinário com o seu animal de estimação e até fico surpreendido quando sei pelo meu amigo Veterinário, as dificuldades que alguns idosos apresentam para ajudar o seu companheiro de solidão. Alguns idosos não compram os seus habituais medicamentos para comprar os medicamentos necessários para salvar o seu animal de estimação. Mas quando adoecem e têm que ir para o hospital, ninguém faz por eles o que eles fizeram pelos seus animais de estimação. É um abandono doloroso, triste e solitário, numa cama do hospital.





A solidão é uma caverna profunda, escura e fria.

Abandonado com o seu fiel amigo o seu Cão.Já estive em casa de algumas pessoas que vivem sozinhas com o seu animal de estimação e facilmente compreendo o significado do seu animal de estimação, com quem falam como se de um ser humano se tratasse. Alguns dizem que é melhor que um Ser humano, porque não magoa, com palavras ou gestos. No Colégio de freiras onde ensino Aikido, também lido com pessoas abandonadas, as meninas internas que lá estão têm histórias bem tristes de partir o coração. Estas meninas entram nesta Instituição com idades de criança ou adolescente, e todas têm uma história para contar. Abandonadas, órfãs e ainda outras histórias, mas é sobre as abandonadas que o meu coração chora lágrimas de sangue. Como é possível alguém abandonar uma menina? Deixá-la numas escadas dum qualquer edifício, enquanto vão ganhar dinheiro na prostituição para a droga ou simplesmente para se alimentarem? Há quem tivesse que dormir durante o frio invernoso, durante as noites chuvosas e tempestuosas com a solidão como companhia, até que alguém descobrisse aquela menina escondida na penumbra daquelas escadas e a levasse.
 

Que triste mundo este, em que tudo pode acontecer sem que nada se possa alterar.
menina abandonada comendo do chão.Quando se pega num Ser nestas condições e a levamos para uma qualquer Instituição de apoio à criança, quase se sente um sentimento de injustiça pelos outras crianças que não podem ser ajudadas, porque não sabemos delas. Crianças que nasceram sem Pai, um Pai que pode ser qualquer homem com quem estas mulheres venderam o corpo. Quantas mais, estarão por aí escondidas esperando pelo mãe que pela madrugada as venha recolher? Tantos abraços e carinhos têm aqueles pequenos Seres para oferecer e ninguém para os receber. De perto, conversando com aquele mundo que passa ali ao lado de mim em silêncio, recebo vezes sem conta abraços e carinhosos gestos de ternura de meninas, que vêm em mim um homem que podia ser o Pai, que tanto adorariam ter encontrado quando neste mundo as colocaram. Sou simplesmente um homem, mais nada. Uma criança deixada num vão das escadas, não é uma criança abandonada e se perguntarmos a essa criança do que é que ela sente falta, certamente ficaremos surpresos se ela disser que é dos abraços da sua mãe. Porque apesar da vida que algumas dessas mulheres têm, elas não deixam de amar o Ser que deram à luz e ninguém consegue dar mais amor a uma criança, que a sua própria mãe que a ama. Poderá ser considerada abandonada por se encontrar sozinha num qualquer lugar sombrio, mas há uma pessoa que luta por ela e que a procura, conforme pode.
Abandonada é aquela criança que é colocada no caixote do lixo ou deixada no meio do nada e a quem lhe viraram as costas, sem quererem saber se sobreviverá. Chama-se crime a um acto destes, mas mesmo considerado crime perante a Lei, vai acontecendo um pouco por todo o lado.
Quando ouvimos falar em casais que fazem tudo para terem uma criança e não conseguem porque são inférteis, soa como que a injustiça quando se sabe que uma criança foi abandonada ou jogada fora como se de lixo se tratasse. Dói! Claro que dói.

A maior das tragédias é quando se sabe de crianças sem um tecto, sem uma cama e muitas das vezes sem uma refeição diária. Há por todo o Mundo situações destas e mais uma vez não importa que o País seja subdesenvolvido ou super-desenvolvido, porque a causa não está na riqueza do País e sim na pobreza dessas pessoas que têm filhos sem qualquer meio de subsistência garantida. Pode-se pensar que nos Países desenvolvidos há mais Instituições de apoio à criança, mas mais uma vez isso não chega. Muitas dessas crianças são arrastadas pela rua num esquema de obtenção de dinheiro como pedintes, não valendo de nada haver ou não haver Instituições de apoio à criança.
 
Quando estive a trabalhar no Centro Jovem Tabor, com os jovens delinquentes com idades compreendidas entre os 14 e os 24 anos, ensinando sobre a espiritualidade e o poder da concentração que se podia aprender treinando Aikido, fui confrontado com situações impressionantes.
Aqueles jovens na sua maioria, tinham nascido e crescido sem certezas duma refeição ou duma noite calma e acolhedora num Lar de Família. Um deles relatou-me que foi usado pelo Pai para obter dinheiro como pedinte até aos 12 anos e depois o Pai gastava tudo o que ele conseguia como pedinte, na droga. A Mãe, outra dependente da droga, também nada fazia, portanto ele era o sustento dele próprio e dos Pais. Um dia este rapaz, esperou que os Pais estivessem a dormir e pegou fogo à cama deles. Claro que foi preso, outra coisa não seria de esperar, é assim a Lei. Os Pais não morreram, mas precisaram de ser hospitalizados por alguns dias.

O que mais me admira nestes casos é verificar mais tarde o desenvolvimento destas pessoas. Já vi pessoas destas que conseguiram seguir uma vida normal, trabalhando para alguém, numa empresa, ou numa loja ou até mesmo trabalhando no seu próprio negócio.
A maioria não segue um caminho dentro dos aspectos legais duma sociedade, normalmente acabam numa prisão, como muitos dos casos existentes nos ficheiros da Policia, muitos destes casos só estão aguardando pela maioridade, para serem apresentados a tribunal.
Recordo com alguma tristeza, aquele dia em que ao chegar ao meu carro o mesmo tinha a janela partida e uma enorme pedra no lugar do condutor. Uma testemunha observou tudo da janela do seu apartamento e prestou declarações ao Policia da investigação.

Foi uma surpresa para mim, quando vi o Policia pegar num "Álbum de Família" e começar a desfolhar os vários menores que já tinham praticado pequenos furtos na Cidade e dos quais tinham uma foto e nessa mesma folha a descrição do que já tinham feito. Quando lhe perguntei porque não eram capturados e retirados à Família, a resposta foi simples, era muito complicado levava muito tempo e acabava em nada, porque os progenitores normalmente defendiam a posse dos seus menores até ao limite.

Não foi difícil à testemunha identificar no Álbum os três menores que tinham partido e roubado tudo do  interior da minha viatura.
A família destes menores foram confrontados por mim e pelo Policia, sem qualquer tipo de reacção e até com alguma naturalidade, foi assim que reagiram os progenitores destes jovens delinquentes.
O Policia disse-me que já sabia destas reacções, era suposto eles trazerem para casa o produto roubado e servirem-se desses produtos para os Pais fazerem algum dinheiro na venda dos mesmos.

Portanto, quando uma criança chega a casa com coisas que não são suas e os seus progenitores até agradecem, o que é que estamos à espera que virá ser o futuro dessas crianças?!
Pensarmos que estas crianças quando forem adultos poderão tomar outro rumo é pensar naturalmente no impossível, porque simplesmente já estão marcados pela Policia e assim que atingirem a maioridade vão direitinhos ao tribunal, ficando marcados para sempre como delinquentes e provavelmente com uma estadia numa qualquer prisão.

Muitos pessoas pensam que na prisão os jovens delinquentes serão reabilitados e voltarão à sociedade como outras pessoas, muito melhores do que antes de entrarem na prisão.  É puro engano pensar assim, porque de acordo com o que vi no Centro dos Jovens delinquentes, eles na prisão eram ensinados pelos outros com mais experiência, como entrar numa casa passando pelo alarme e como abrir as fechaduras de carros ou de casas. Aprendiam tudo sobre os roubos e alguns passavam a pertencer aos grupos organizados de roubo e assalto que existia na cidade, em vez de trabalharem sozinhos nessa vida de criminosos.

A conclusão a que se chega é que é muito difícil endireitar quem nasce sem apoios de moral e de bens essenciais, costuma-se dizer, "Quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita".

Homeless ou Sem-abrigo.

Estas pessoas existem por todo lado, quero eu dizer que é comum encontrar pessoas sem lar em qualquer País do Mundo.

Sem abrigo dormindo no chão da rua.No Japão, a segunda maior economia do Mundo, era natural encontrar este tipo de pessoas por toda a cidade de Osaka.

Juntavam-se ao anoitecer e partilhavam o que tinham para comer e para beber, eram homens na sua maioria, mas também havia algumas mulheres.
Os estabelecimentos comerciais punham à porta no fim do dia várias caixas de cartão, caixas dos produtos já vendidos. Essas caixas de cartão eram recolhidas por estes "Sem abrigo" que as juntavam e as iam vender como sucata. As caixas de cartão serviam como cama e casa com tecto para muitos dos "Sem abrigo", os quais se juntavam como forma de se protegerem de outros tipos de vagabundos, que normalmente os procuravam para roubar o pouco que tinham. Eram naturalmente despojados de tudo e se resistissem eram mortos à facada, sem qualquer contemplação.

Vi os "Sem abrigo" em várias cidades da Europa, como por exemplo na Holanda onde residi durante sete meses. Aqui na Holanda a Policia geralmente intervém com os que dormem na rua, eu próprio assisti à intervenção dum carro patrulha que solicitou aos serviços de assistência aos "Sem abrigo", que viessem recolher aquele homem que estava a dormir num alpendre dum estabelecimento comercial.
Na Holanda não aceitam ninguém a dormir na rua e se houver algum é porque não foi visto por nenhum agente da autoridade.
Imagem que comprova a tendência dos Sem abrigo.Curiosamente estranho é o facto dos Sem "abrigo" não quererem muitas das vezes irem dormir debaixo dum tecto. Quando um dia pus essa questão a um "Sem abrigo" português, ele disse-me que não era o dormir debaixo dum tecto que o incomodava, mas sim o controlo que queriam exercer sobre ele. Este homem de cerca setenta e poucos anos de idade, tinha sido Chefe da Repartição das Finanças, não quis dizer aonde tinha tido essa função e esse cargo.
Quando lhe perguntei o porquê de ter vindo para a rua e passar a viver daquele modo, ele respondeu-me que tinha sido após a morte da sua querida mulher, que tinha filhos e netos num outro ponto do País, mas que se afastou de tudo e de todos e que assim irá ficar até abandonar este Mundo.

Quando insisti perguntando se o tinham abandonado, se ninguém queria saber dele, ele respondeu-me dizendo que todos tinham a sua vida e ninguém tinha tempo para ele. Passava a maior parte do tempo sozinho dentro de casa e  quando o tempo estava bom ainda fazia uns passeios pelas ruas. Então e os seus amigos?! Certamente tem amigos, perguntei-lhe. Tenho amigos, mas a maioria estão doentes ou recolhidos em Centros de apoio à velhice e outros já morreram ou estão inválidos, concluiu.

Muitas destas pessoas "Sem abrigo" começam esta cruzada pelo abandono a que foram sujeitos ou que assim o sentiram. Não me surpreende ver um homem com este perfil como "Sem abrigo", não me surpreende porque compreendo a sua atitude. À casos de "Sem abrigo", que nunca tiveram nada, nem cultura nem formação ou nem sequer uma família. Os casos de pessoas que estiveram perfeitamente integradas na Sociedade e depois vamos encontra-las na rua, é um tipo de "Sem abrigo" que tem muito mais a ver com decisões face à existência, do que por falta de bens ou de familiares.

No Canada vi uma vez uma senhora como Homeless com sinais exteriores de quem tinha tido algum luxo na sua vida anterior. Tentei um pouco de conversa, mas não fui bem aceite, mesmo depois de lhe ter dado um dólar, talvez fosse melhor ter dado um pouco mais, não sei. Sem dúvida tinha um Inglês bem polido segundo disse a minha companheira Canadiana, dando indícios pelos seus gestos e palavras duma educação acima da média, segundo me disseram. Estava de mão estendida e os braços davam indícios de terem sido usados por agulhas várias vezes.

Fazíamos demonstrações todos os anos pela Feira de Santiago, foi o homem que lançou o Taekwondo em Setúbal e não só, e quando o encontrei na rua fiquei chocado com o que vi.
Sabia que gostava de fumar uns charrinhos, pelo que sei tinha sido induzido a isso pela sua ex-esposa, mas depois passou por uma fase de divorcio e tudo descambou na sua vida. Disseram-me que passou para as drogas pesadas e claro, transformou-se num farrapo humano. Agora é um "Sem abrigo", mais um dos muitos milhares que enchem as ruas de uma qualquer cidade do Mundo. Houve quem o tentasse recuperar, mas voltou de novo a cair e bem no fundo ficou.

Os "Sem abrigo" provenientes do Mundo da droga, são aos milhares e sem solução à vista, cada vez há mais pessoas que arruínam tudo à sua volta por causa da sua dependência da droga.
São várias as causas que levam à condição de "Sem abrigo", mas tudo depende da formação do carácter do indivíduo das suas bases iniciais. Uma criança na sua formação de base poderá levar os genes dos seus progenitores, mas precisará sempre de alguém que a ensine a criar uma capa de aço que a proteja do "Mundo cão".

Enfim, as experiências adquiridas são a base da nossa real formação.
Aprender com os que falham para não falhar no futuro.

Orlando Marques