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Criança de 6 anos mata saudade. De: 05-12-2009 -->Ver Comentários
O globo dos blogues


Ao longo destes 34 anos de ensino do Aikido, tenho convivido e ensinado o Aikido a  muitos tipos de pessoas. Pessoas muito importantes na Sociedade, muito ricas materialmente, pessoas com altos graus académicos e também o oposto deste tipo. Estou a falar de pessoas muito pobres e de pessoas retiradas da relação com a Sociedade, como os jovens delinquentes dos 14 aos 24 anos de idade, do Centro Jovem Tabor. Uma brilhante organização que infelizmente cessou as suas atividades de recuperação e formação desses mesmos jovens.

Estágio Anual de Aikido Infantil

As crianças são de longe, as pessoas que mais me envolvem sentimentalmente nesta Arte do Ensino. Pela sua simplicidade, pela sua natureza pura e desinteressada, são sem dúvida seres maravilhosos, pena é que todos tenhamos que crescer e mudemos ou percamos esses valores tão admiráveis.

Costumo dizer que ser Pai ou Mãe, não é sinónimo de Educador. Há Pais que que estão a prejudicar o futuro dos seus filhos pela forma complacente  como os educam, aceitando com passividade os seus atos de desrespeito para com os mais velhos ou simplesmente ignorando. Há Pais que não sabem mostrar à sua criança quem manda, e as crianças crescem pensando que todos têm que lhes respeitar os seus desejos ou caprichos. É importante ensinar às crianças o que é a autoridade, o que é o respeito, assim como o sentido de responsabilidade.

Um dos aspectos mais comuns nalguns Pais, é a grande dificuldade que têm em dizer "Não", mesmo que a criança chore ou faça uma grande birra o "Não" deve-se manter. É num momento de choro ou de grande birra, que os Pais são postos à prova,  e se nesse momento cederem, a criança aprende de imediato que esse é o processo para vencer futuras batalhas, contra os seus progenitores.

Eu recordo a minha infância e considero que era em excesso as vezes que me batiam, era raro o dia que não apanhava da minha Mãe, enquanto do meu Pai bastava o seu vozeirão e o seu rosto crispado para me meter na ordem. Hoje em dia não se toca nas crianças, nem um açoite no "rabo" sequer. Muitos dos Pais negoceiam com a sua criança, fazem acordos e trocas de interesses, muitos pedem que a criança "Prometa" que não volta a fazer a mesma asneira.
A questão principal desses métodos é quando a criança se confronta com a autoridade de alguém que não pode nem quer negociar, nem aceita promessas. Como será a reação dessa criança? Será pacífica? Irá adaptar-se no minuto seguinte à nova realidade?

Claro que não!

A criança desenvolve toda uma série de problemas nesse novo ambiente, que acaba sempre por sobrar para os seus progenitores. Os Pais começam a sentir o resultado desses métodos, assim que a criança entra no sistema escolar.

Mas vamos em frente, e comecemos por falar sobre a criança de 6 anos que "matou" a saudade.

  Tomás é uma criança meiga e amigo de todos, nunca bate nos outros e gosta de brincar sem magoar. Tomás começou a treinar Aikido comigo quando tinha 4 anos, adorava ser o primeiro a chegar ao Dojo, e por isso, assim que a porta da sua sala se abria, era vê-lo a correr em direção ao Ginásio.
  Se outro que não ele, fosse o primeiro a chegar à porta do Ginásio, então era certo que o Tomás iria chorar por ter perdido. Este meu querido amiguinho, queria ganhar sempre em todos os jogos e por isso foi muito difícil ensinar-lhe, que a derrota é tão importante como a vitória. No entanto, com o tempo, ele foi aprendendo que com a derrota nasce em nós a humildade e o desejo de melhorar, enquanto com a vitória nasce em nós mais vaidade e perdemos discernimento. Com o passar dos meses, este menino deixou de parte o problema da derrota, até porque no Aikido não há "Derrota ou "Vitória", a nossa luta é por viver em harmonia, viajando nesta existência pelo "Caminho do Meio".

  Como é meu costume naquela Escola primária, venho sempre ao recreio para chamar os mais distraídos, é vê-los a correr de um lado para o outro, perseguindo uma bola ou um outro colega qualquer. As meninas são mais fáceis de encontrar, geralmente estão sentadas a conversar ou vão para o parque do escorrega. Se não os chamar, muitos são os que não se lembram, que é dia de treinar Aikido e são só duas vezes por semana.

  Enquanto eu procuro pelos "distraídos", há sempre quem entre para cima do Tapete para participar nos Joguinhos inventados por mim,  como o Ratatão, o Caçador, ou ainda o Jogo da Aranha ou a Raposa ou os Cavaleiros, etc.

  É evidente que quando começo a aula com a sessão de concentração, acaba-se os "joguinhos" e tudo passa a ser com respeito e disciplina. De outro modo não seria possível ensinar nada, a vinte e tal crianças em movimento.

Voltemos ao nosso amiguinho.

Quando voltei para o Tapete, deixei brincarem mais um pouco, afinal a finalidade dos "Joguinhos" é substituir a preparação física e ao mesmo tempo descontrair um pouco aquelas crianças, que estiveram o dia todo a aprender coisas, sendo também verdade, que mais de metades das coisas que ouvem não sabem o seu significado, porque não sabem o significado de todas as palavras utilizadas pelos adultos.

 classe_em_concentração

Mandei sentar todos em linha como é costume nas Artes Marciais e preparava-me para começar com a concentração, quando uma senhora no cimo das escadas me interpolou perguntando pelo seu filho.
  Levantei-me e pedi à senhora que se aproximasse do tapete, a senhora queria saber se o seu filho estava ali, porque tinha corrido toda a Escola e não encontrava o seu filho. Perguntei como se chamava a criança e depois olhando um a um os que estavam sentados, depressa comprovei a presença do nosso amiguinho no meio dos outros.

 -Tomás o que fazes aqui, hoje é dia de Futebol! Disse-lhe a Mãe. 

O meu amiguinho respondeu de imediato. -Vim "matar" saudades do Meu Mestre!

Foi uma gargalhada geral, todos acharam uma tremenda graça aquele pequeno grande homem e à sua espontânea resposta.

Agora digam lá se também não se envolviam sentimentalmente, com estes pequenos grandes guerreiros das Artes Marciais?

È assim deste modo que os dias vão passando, sempre a vê-los chegar e a vê-los partir. Quando não é o Futebol é a crise e quando não é crise é o receio de contágio por contacto da Gripe A. Há sempre algo que os afasta de mim e do Aikido. 
  Errado, mesmo muito errado, é quando são castigados com o Aikido, quando são afastados dos treinos por castigo. Normalmente uma criança é castigada com coisas que os Pais sabem que elas  gostam muito, mas neste caso é tirar-lhes algo que ajuda nos estudos, como o treino da concentração e a enfrentarem e a superarem os medos da sua jovem existência, ou a adquirem disciplina de comportamento físico e social.

Crianças, adolescentes ou adultos, todos os que experimentam o Aikido, sentem a Paz interior.

Uma coisa também é certa, todos os praticantes que passam pelo o Aikido, sempre sentem que melhoraram  algo dentro de si.

A experiência é admiravelmente interessante para passar despercebida.

Bem hajam.




Orlando Marques