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Ao longo destes 34 anos de ensino do Aikido, tenho
convivido e ensinado o Aikido a muitos tipos de pessoas.
Pessoas muito importantes na Sociedade, muito ricas materialmente,
pessoas com altos graus académicos e também o oposto deste tipo.
Estou a falar de pessoas muito pobres e de pessoas retiradas da
relação com a Sociedade, como os jovens delinquentes dos 14 aos 24
anos de idade, do Centro Jovem Tabor. Uma brilhante organização que
infelizmente cessou as suas atividades de recuperação e formação
desses mesmos jovens.

As
crianças são de longe, as pessoas que mais me envolvem
sentimentalmente nesta Arte do Ensino. Pela sua simplicidade, pela
sua natureza pura e desinteressada, são sem dúvida seres
maravilhosos, pena é que todos tenhamos que crescer e mudemos ou
percamos esses valores tão admiráveis.
Costumo dizer que ser Pai ou Mãe, não é sinónimo de
Educador. Há Pais que que estão a prejudicar o futuro dos seus
filhos pela forma complacente como os educam, aceitando com
passividade os seus atos de desrespeito para com os mais velhos ou
simplesmente ignorando. Há Pais que não sabem mostrar à sua criança
quem manda, e as crianças crescem pensando que todos têm que lhes
respeitar os seus desejos ou caprichos. É importante ensinar às
crianças o que é a autoridade, o que é o respeito, assim como o
sentido de responsabilidade.
Um dos aspectos mais comuns nalguns Pais, é a grande
dificuldade que têm em dizer "Não", mesmo que a criança chore ou
faça uma grande birra o "Não" deve-se manter. É num momento de choro
ou de grande birra, que os Pais são postos à prova, e se nesse
momento cederem, a criança aprende de imediato que esse é o processo
para vencer futuras batalhas, contra os seus progenitores.
Eu recordo a minha infância e considero que era em
excesso as vezes que me batiam, era raro o dia que não apanhava da
minha Mãe, enquanto do meu Pai bastava o seu vozeirão e o seu rosto
crispado para me meter na ordem. Hoje em dia não se toca nas
crianças, nem um açoite no "rabo" sequer. Muitos dos Pais negoceiam
com a sua criança, fazem acordos e trocas de interesses, muitos
pedem que a criança "Prometa" que não volta a fazer a mesma asneira.
A questão principal desses métodos é quando a criança se confronta
com a autoridade de alguém que não pode nem quer negociar, nem
aceita promessas. Como será a reação dessa criança? Será pacífica?
Irá adaptar-se no minuto seguinte à nova realidade?
Claro que não!
A criança desenvolve toda uma série de problemas
nesse novo ambiente, que acaba sempre por sobrar para os seus
progenitores. Os Pais começam a sentir o resultado desses métodos,
assim que a criança entra no sistema escolar.
Mas vamos em frente, e comecemos por falar sobre a
criança de 6 anos que "matou" a saudade.
Tomás é uma criança meiga e amigo de todos,
nunca bate nos outros e gosta de brincar sem magoar. Tomás começou a
treinar Aikido comigo quando tinha 4 anos, adorava ser o primeiro a
chegar ao Dojo, e por isso, assim que a porta da sua sala se abria,
era vê-lo a correr em direção ao Ginásio.
Se outro que não ele, fosse o primeiro a chegar à porta do Ginásio, então
era certo que o Tomás iria chorar por ter perdido. Este meu querido
amiguinho, queria ganhar sempre em todos os jogos e por isso foi
muito difícil ensinar-lhe, que a derrota é tão importante como a
vitória. No entanto, com o tempo, ele foi aprendendo que com a
derrota nasce em nós a humildade e o desejo de melhorar, enquanto
com a vitória nasce em nós mais vaidade e perdemos discernimento.
Com o passar dos meses, este menino deixou de parte o problema da
derrota, até porque no Aikido não há "Derrota ou "Vitória", a nossa
luta é por viver em harmonia, viajando nesta existência pelo
"Caminho do Meio".
Como é meu costume naquela Escola primária, venho
sempre ao recreio para chamar os mais distraídos, é vê-los a correr
de um lado para o outro, perseguindo uma bola ou um outro colega
qualquer. As meninas são mais fáceis de encontrar, geralmente estão
sentadas a conversar ou vão para o parque do escorrega. Se não os
chamar, muitos são os que não se lembram, que é dia de treinar
Aikido e são só duas vezes por semana.
Enquanto eu procuro pelos "distraídos", há sempre
quem entre para cima do Tapete para participar nos Joguinhos
inventados por mim, como o Ratatão, o
Caçador, ou ainda o Jogo da Aranha ou a Raposa ou os Cavaleiros,
etc.
É evidente que quando começo a aula com a
sessão de concentração, acaba-se os "joguinhos" e tudo passa a ser
com respeito e disciplina. De outro modo não seria possível ensinar
nada, a vinte e tal crianças em movimento.
Voltemos ao nosso amiguinho.
Quando voltei para o Tapete, deixei brincarem mais
um pouco, afinal a finalidade dos "Joguinhos" é substituir a
preparação física e ao mesmo tempo descontrair um pouco aquelas
crianças, que estiveram o dia todo a aprender coisas, sendo também
verdade, que mais de metades das coisas que ouvem não sabem o seu
significado, porque não sabem o significado de todas as palavras
utilizadas pelos adultos.

Mandei
sentar todos em linha como é costume nas Artes Marciais e
preparava-me para começar com a concentração, quando uma senhora no
cimo das escadas me interpolou perguntando pelo seu filho.
Levantei-me e pedi à senhora que se aproximasse do tapete, a senhora
queria saber se o seu filho estava ali, porque tinha corrido toda a
Escola e não encontrava o seu filho. Perguntei como se chamava a
criança e depois olhando um a um os que estavam sentados, depressa
comprovei a presença do nosso amiguinho no meio dos outros.
-Tomás o que fazes aqui, hoje é dia de Futebol!
Disse-lhe a Mãe.
O meu amiguinho respondeu de imediato. -Vim "matar"
saudades do Meu Mestre!
Foi uma gargalhada geral, todos acharam uma tremenda
graça aquele pequeno grande homem e à sua espontânea resposta.
Agora digam lá se também não se envolviam
sentimentalmente, com estes pequenos grandes guerreiros das Artes
Marciais?
È assim deste modo que os dias vão passando, sempre
a vê-los chegar e a vê-los partir. Quando não é o Futebol é a crise
e quando não é crise é o receio de contágio por contacto da Gripe A.
Há sempre algo que os afasta de mim e do Aikido.
Errado, mesmo muito errado, é quando são castigados com o Aikido, quando
são afastados dos treinos por castigo. Normalmente uma criança é
castigada com coisas que os Pais sabem que elas gostam muito,
mas neste caso é tirar-lhes algo que ajuda nos estudos, como o
treino da concentração e a enfrentarem e a superarem os medos da sua
jovem existência, ou a adquirem disciplina de comportamento físico e
social.
Crianças, adolescentes ou adultos, todos os que
experimentam o Aikido, sentem a Paz interior.
Uma coisa também é certa, todos os praticantes que
passam pelo o Aikido, sempre sentem que melhoraram algo dentro
de si.
A experiência é admiravelmente interessante para
passar despercebida.
Bem hajam.
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