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Quando cheguei ao Japão pela primeira vez em Janeiro de 1998, mal
podia acreditar no meu destino, era tanta a felicidade, a alegria de
estar naquele País, que nem sabia o que pensar. As dificuldades
tinham sido esquecidas e em mim só existia um estado de graça
impossível de descrever.
A minha chegada ao Aeroporto de Osaka foi precedida de uma surpresa
admirável. Ao aterrar, o Avião inclinou-se sobre uma das asas e
quase podia tocar no Mar com uma das minhas mãos, tal era a sensação
de proximidade com o Mar. Nunca tinha visto um Aeroporto no Mar e
aquele tinha sido construído no Mar com ligação por uma Ponte à
Cidade de Izumisano. Simplesmente impressionante, pensei eu com os
meus "botões", enquanto o nervoso miudinho atacava nos pés, era
assustadora aquela aterragem com o Mar tão perto.
Quando saí do Avião as minhas pernas estavam cansadas de estar
tantas horas sentado, foram cerca de 10 horas dentro do Avião desde
Londres e o espaço entre as cadeiras tornara impossível sentir
qualquer comodismo. Ainda pensei em dormir, mas a excitação era
tanta que a minha cabeça não parava de pensar, naquela oportunidade
obtida miraculosamente.
No Aeroporto estava o Mestre Honda e o Senhor Moriya que ainda não
conhecia, mas que viria a ser um meu grande amigo. Levaram-me de
carro, num carro espaçoso do Sr. Moriya e quando parámos
perguntaram-me se queria comprar alguma coisa para comer. Não
entendi porque me estavam a perguntar sobre comida, afinal no Avião
tinha comido muito e só pensava em deitar-me numa cama.
Respondi-lhes que só precisava de deitar-me um pouco, talvez dormir
umas horas. Eles não entenderam e o Mestre Honda esclareceu-me no
seu Português "especial", que iria ficar naquela zona e que iria
dormir num apartamento ali perto. Eu perguntei-lhe se ali era a sua
casa e ele disse-me que não, que ali era Showacho.
Depois de adquirir alguns alimentos prontos a serem comidos pela
manhã, tais como pão, leite e alguma fruta (fruta muito cara, era
tudo muito caro.) conduziram-me a um Prédio ali perto, onde pude ver
onde iria dormir naquela semana.
Imaginem levar 70 contos para o Japão, (Era na altura setenta mil
escudos, que representam hoje 350 euros), para passar 3
semanas e verificar no primeiro dia que o leite custava 400 escudos
o litro, (O mais barato era cerca de 200 Yenes o litro) e o pão
cerca de 300 escudos um pedaço. Quanto à fruta nem queria acreditar
no que via, porque a fruta mais barata eram as Bananas e 3
Bananas ficavam pelo preço de 100 Yenes, ou seja 200 escudos em
moeda Portuguesa.
Só para terem uma idéia da diferença dos preços, posso dizer que em
Portugal comprava um kilo de bananas por cerca de 30 escudos.
Quando ia para pagar o Senhor Moriya recusou o meu dinheiro e
disse-me (No seu Inglês.) que eu era o seu convidado, para não me
preocupar com nada. Confesso que me senti mais aliviado com a sua
oferta e comecei a pensar que assim talvez o dinheiro das férias
chegasse até ao fim da estadia.
Depois de ver onde iria dormir, levaram-me ao Dojo onde iria treinar
toda semana o Kangueiko. Era perto do Apartamento e a pé voltámos ao
Apartamento de novo, para de seguida irmos de carro procurar pelo
almoço. À tarde fomos dar uma volta pela baixa de Osaka e quando a
noite chegou chegou também o Jantar. Parece que foi simples o Almoço
e o Jantar, supostamente foi só Almoçar?
Não foi simplesmente duas refeições, foi sim a mais complexa
refeição que tinha tido até à data. Já tinha experimentando uma vez,
comida Japonesa em Portugal, no entanto a diferença é muito grande
em variedade e em sabor. Recordo as palavras do Mestre Honda: -
Tentativa, experimenta, faz favor.
SHOWACHO
Pela manhã o despertador tocou, eram 6 horas e eu já estava
acordado. A cama tinha sido tão dura, como foram as refeições
anteriores de ingerir, o colchão (futon) com 10 cm de espessura
apoiado numa cama de madeira, fizeram com que eu descobrisse e
numerasse todos os ossos do meu corpo naquela primeira noite.
Peguei no meu saco do Desporto e fui direito ao Dojo, o treino
começou às 7 horas da manhã como era costume num Kangueiko (Treino
de inverno), o frio gelara os meus pés ainda antes de chegar ao
Tapete e não consegui aquece-los durante todo o treino, tornou-se
doloroso cada vez que tinha que me sentar sobre os calcanhares "Seiza".
No regresso a casa passei por um lugar de "Pronto a comer" e adquiri
uma refeição e água, tudo pelo preço de 800 Yenes ou seja 1600
escudos. Aqueles preços estavam a destruir todo o meu rico
dinheirinho e daquele modo depressa ficaria sem dinheiro. Estava
preocupado.
Pelas 16h dirigi-me para o Metro, sabia que a linha era a vermelha e
que devia sair em Namba Station. Quando fui para comprar o bilhete
vi o meu rico dinheirinho a desaparecer de novo, o bilhete de Metro
até Namba era 640 yenes e ainda faltava apanhar o comboio para
Izumisano, onde me iria encontrar com o Mestre Honda para treinar
com ele.
Um papel parecido com este e um mapa do Metro de osaka.
地
下
鉄
御
堂
筋
線
・
北
大
阪
急
行
|
※
江坂~千里中央は北大阪急行、江坂~なかもずは御堂筋線
|
千里中央 |
● |
Senri-chuo |
→大阪モノレール |
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桃山台 |
● |
Momoyamadai |
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緑地公園 |
● |
Ryokuchi-koen |
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江 坂 |
● |
Esaka |
| 東三国 |
● |
Higashi-mikuni |
| 新大阪 |
● |
Shin-osaka |
→JR京都線(東海道本線)
東海道・山陽新幹線 |
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西中島南方 |
● |
Nishinakajima
-minamigata |
→阪急京都線 |
| 中 津 |
● |
Nakatsu |
| 梅 田 |
● |
Umeda |
→四つ橋線、谷町線
JR神戸線、JR京都線、大阪環状線
阪急(神戸線、宝塚線、京都線)
阪神本線
|
| 淀屋橋 |
● |
Yodoyabashi |
→京阪 |
| 本 町 |
● |
Hommachi |
→中央線 |
| 心斎橋 |
● |
Shinsaibashi |
→長堀鶴見緑地線 |
| なんば |
● |
Namba |
→千日前線、四つ橋線
近鉄奈良線
南海(本線、高野線)
JR大和路線 |
| 大国町 |
● |
Daikokucho |
→四つ橋線 |
| 動物園前 |
● |
Dobutsuen-mae
(Tennoji Zoo) |
→堺筋線 |
| 天王寺 |
● |
Tennoji |
→谷町線
近鉄南大阪線
JR(阪和線、大和路線)
阪堺電車 |
| 昭和町 |
● |
Showacho |
| 西田辺 |
● |
Nishitanabe |
| あびこ |
● |
Abiko |
| 長 居 |
● |
Nagai |
| 北花田 |
● |
Kitahanada |
| 新金岡 |
● |
Shin-kanaoka |
| なかもず |
● |
Nakamozu |
→南海高野線 |
|
Ver mapa do Metro de Osaka:
http://www.everythingforeign.com/map.pdf
NAMBA: Oito linhas de Metro e várias outras
linhas de comboios.
Quando cheguei a Namba fiquei preocupado, mas
mesmo assim comecei a caminhar pela linha vermelha até encontrar
as escadas largas que me tinham mostrado na véspera. Comecei a
subir até ao próximo patamar onde pude ver várias máquinas de
venda de bilhetes. Fiquei de novo preocupado, porque na véspera
tinha ficado com a certeza que saberia qual era a máquina onde
deveria comprar o bilhete de comboio para o Aeroporto. Vi que
poderia cometer um erro e perguntei a uma pessoa como comprar
bilhete para Izumisano, o resultado foi negativo durante várias
tentativas, ninguém queria falar comigo, todos estavam com
pressa ou não falavam Inglês "Eigo hanashi imasen" era o que
ouvia constantemente. Fiquei nervoso como seria de esperar, mas
sem perder a coragem fui olhando e decidi arriscar, meti
mais uns milhares de escudos (dinheiro português, recordo.) na
máquina e lá obtive o pedacinho de papel, que permitia a
passagem pelo sistema de controlo do passageiro.
Hagurazaki
O objetivo era este local "Hagurazaki" e tinha
que saber qual o Comboio que parava nesta Estação. Era e ainda
é, uma Estação de menor importância e só os Comboios "Local
Train" paravam naquela Estação, ou então seguir num Rápido e
depois mudar para um "Local" numa Estação intermédia.
Para não falhar esperei que houvesse um desses Comboios que
paravam em todas as Estações, e assim cheguei ao local onde
morava o Mestre Honda. Foi assim toda a semana em que estive em
Showacho. À noite regressava ao quarto com cozinha e todos os
dias fazia a viagem até Hagurazaki.
Segundo dia em Showacho.
Na manhã do segundo dia fiz de modo diferente,
vesti o fato de treino, meti o Hakama num saco plástico e com um
impermeável fui a correr até ao Dojo. Chovia naquela manhã, o
frio não era tão intenso e assim cheguei ao Dojo a transpirar e
completamente encharcado. O Aikidogi (Fato de Aikido) que tinha
vestido por baixo do fato de treino estava seco, os pés estavam
encharcados mas quentinhos.
No treino era sempre muito procurado pelos outros praticantes
Japoneses, os quais achavam em mim uma grande curiosidade e
admiração, afinal era o único que não chegava de carro à porta
do Dojo.
Sempre que o Sensei dava ordem para iniciar o treino de uma
técnica previamente demonstrada para a classe, os mais jovens
precipitavam-se na minha direção, indo de joelhos ao chão em
convite formal para treinar com um deles. Tinha que escolher um
deles enquanto agradecia aos restantes gentilmente.
Não era o que eu queria que acontecesse no treino, ser alvo
daquelas atenções. Gostaria de ter a oportunidade de escolher um
ou outro praticante, para obter mais algum conhecimento sobre a
Arte.
Terceiro dia em Showacho.
O meu corpo estava tão dorido que até o andar
era doloroso para mim. Naquela manhã tinha acordado após várias
vezes o ter feito durante a noite, para contar os ossos do meu
corpo. Aquela cama era tão dura como um tatami (Tapete de
Aikido) e quando pedi ajuda ao meu amigo Moriya, ele falou ao
responsável pelo local que de imediato trouxe outro colchão.
-Hard very hard néé?! Perguntou-me o simpático
senhor com um sorriso de orelha a orelha.
Eu respondi que sim, que era um pouco duro e
agradeci com um "Domou arigatou gozai mashita" curvando também a
cabeça ao mesmo tempo.
Agora pergunto-vos: -Qual é a diferença de
dormir sobre uma pedra em cima de outra pedra?! Pois é, foi essa
a sensação que eu tive naquela noite.
Naquela manhã voltei a ir a correr para o Dojo,
chovia como na manhã anterior, no entanto era melhor assim,
porque assim sofria menos com o inicio da aula de Aikido.
Durante aqueles dias restantes e até ao Sábado fui agindo de
modo diferente, não me deixando surpreender pelos jovens que me
assaltavam continuamente, para treinar comigo. Procurava
sentar-me durante a demonstração da Técnica junto de um ou outro
Mestre mais velho e assim que havia ordem para começar o treino,
era só virar-me na sua direcção e convidar "Onegai Shimasu".
Todos os dias ia para Hagurazaki, onde o Mestre
Honda esperava na Estação do Comboio, para de seguida irmos para
um Dojo. Todos os dias era um Dojo diferente e havia Dojo com
Tatami de palha de arroz, o qual parecia que estava a bater com
o corpo no chão. A noite era sempre alegre e bem disposta com
mais alguns outros alunos do Mestre Honda. O Sake morno aquecia
ligeiramente no fim da refeição e a viagem para casa era sempre
com o Miake san, também um bom amigo sempre prestável e
simpático. Muitas das vezes adormecia durante a viagem no seu
Jipe de tão cansado e dorido que estava, Mas... Feliz.
Koboyashi Shihan
Eis que chega o dia de Sábado e com ele o dia da chegada do
Mestre Koboyashi. Vários carros estavam na rua parados,
deixando os vários visitantes no local. O Dojo estava cheio e
quando pude chegar à recepção pude observar que havia um
controlo de entrada que não tinha havido nos outros dias
anteriores. Tinham chegado vários visitantes para verem e muitos
para treinarem com o lendário Mestre Koboyashi, eu já tinha a
minha presença assegurada desde o inicio da semana. Estava a
frequentar o Dojo pelo Kangueiko e não sabia que
iria ter lá naquele lugar o Mestre Koboyashi, pessoa que muito
admirei em toda a minha vida como Mestre de Aikido.
Mestre Koboyashi mostrou alguma surpresa por ver ali um
ocidental e ainda mais por ser Português, porque depois
verificou pelo Yudansha Card (Passaporte da Aikikai) que tinha
sido ele que me tinha dado o 1ºDan através do Mestre Honda em
Portugal.
O Mestre Koboyashi estava doente, podia-se
ver no seu rosto que a saúde andava longe daquele corpo, ainda
assim cheio de energia e vontade para demonstrar a sua Técnica e
o seu Espírito de guerreiro. Aquele foi último dia do kangueiko,
nem me passou pela cabeça quando me despedi dele, que iria
voltar a ver aquele Mestre na ultima semana no Japão e que seria
no Exame de 3ºDan.
Em
28 de Agosto de 1998 morre o Mestre Hirokazu Koboyashi 8ºDan Aikikai.
Na foto pode-se ver Orlando Marques ao lado esquerdo do Mestre.
Foto obtida no Kangueiko em Janeiro de 1998.
Nesse mesmo Sábado saí de Showacho e fui colocado no Hotel SunPlus
em Izumisano em regime de pequeno-almoço por ordem do meu grande
amigo Moriya san. Foi um descanso em todos os sentidos, quero eu
dizer que pude finalmente ter uma caminha confortável e poupar o
resto dos "tostões" que ainda me restava até ao final das 3 semanas.
Podia ser que ainda chegasse para pagar o exame de 3ºDan.
Sonho desfeito após saber no dia do exame, que o valor do mesmo era
mais que o dinheiro que eu tinha levado, para passar as 3 semanas no
Japão.
O pequeno-almoço era à Japonês o que quer dizer que era quase um
almoço e assim, nos dias em que não me vinham buscar para almoçar ou
visitar qualquer lugar de interesse Turístico, podia comer um pouco
mais ao pequeno-almoço e esperar pelo Jantar.
Aquilo era lá vida para um Português! Viver no Japão com os escudos,
moeda Portuguesa.
Foi uma experiência inolvidável, enriquecedora,
maravilhosa e ... Dorida.
Bons treinos
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